
Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, recebeu no dia 21 de agosto uma programação especial em comemoração ao Dia Nacional do Campo Limpo, celebrado oficialmente em 18 de agosto. Promovido pela Associação dos Distribuidores de Insumos Agropecuários dos Campos Gerais (Assocampos), em parceria com o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV), o evento abriu as portas da central para produtores rurais, estudantes, famílias e representantes do setor conhecerem de perto o funcionamento da logística reversa e discutir os diferentes aspectos relacionados à sustentabilidade no campo.
A iniciativa fez parte das comemorações do Dia Nacional do Campo Limpo, criado para reconhecer o trabalho conjunto de agricultores, canais de distribuição, indústria e poder público na logística reversa e destinação ambientalmente adequada das embalagens vazias de defensivos agrícolas. O Sistema Campo Limpo é estruturado justamente a partir dessa responsabilidade compartilhada entre os diferentes elos da cadeia.
Na região dos Campos Gerais, os números ajudam a dimensionar a evolução desse trabalho. Segundo Luiz Fernando de Abreu Marion, coordenador de centrais do inpEV e Responsável Técnico da Assocampos, a região já ultrapassou 7 mil toneladas de embalagens encaminhadas para destinação ambientalmente adequada desde o início das atividades, em 2002. Esse volume representa aproximadamente 1,8% do total nacional do Sistema Campo Limpo, de acordo com Marion.
Para a presidente da Assocampos, Janete Zucco, a realização do evento teve justamente o objetivo de aproximar a comunidade do trabalho realizado diariamente pela associação.
Segundo ela, o produtor rural vem incorporando cada vez mais a sustentabilidade à rotina da propriedade. “Hoje é um dos dias mais importantes para a Assocampos. É muito gratificante trazer a comunidade para perto e mostrar como temos avançado, cada vez mais, em nossas práticas sustentáveis.”
Janete destaca que a evolução também pode ser percebida no volume de embalagens recebidas pela central. Para ela, o produtor passou a compreender que a responsabilidade não termina no momento da aplicação do produto.
“Antigamente, a gente via muita sobra de embalagem no campo. Hoje é diferente: o próprio produtor adquire o produto e, no mesmo ano, já faz a devolução correta para nós.”
A presidente considera importante que a população conheça o caminho percorrido pelas embalagens depois que deixam a propriedade rural. A programação permitiu justamente apresentar a estrutura da central e explicar como ocorre o recebimento e a destinação desse material.
Luiz Fernando de Abreu Marion explica que o Dia do Campo Limpo é também uma oportunidade de reunir todos os participantes da cadeia produtiva para celebrar os resultados alcançados.
“Os principais objetivos desse evento é reunir a comunidade, agricultores, distribuidores, que são nossos associados, revendas, cooperativas e fumageiras, representantes da indústria e do poder público para juntos a comunidade celebrarmos os bons resultados do Sistema Campo Limpo.”
Marion ressalta que a participação dos agricultores vem crescendo ao longo dos anos. Segundo ele, embora a legislação estabeleça a devolução das embalagens dentro de determinados prazos (01 ano a contar da data da compra), muitos produtores da região estão fazendo as entregas com frequência ainda maior.
“Nós percebemos, por exemplo, na nossa área de atuação, nos Campos Gerais, que os agricultores vêm optando por, no mínimo, devolver duas vezes no ano.”
Ele cita ainda casos de produtores que realizam a devolução praticamente todos os meses. “O agricultor não quer ficar com este resíduo na sua propriedade, mesmo que armazenado adequadamente, respeitando a legislação.”
No cenário nacional, o Sistema Campo Limpo já ultrapassou 900 mil toneladas de embalagens vazias destinadas desde o início da operação, consolidando o modelo brasileiro como referência internacional em logística reversa no setor agrícola.
Dia Nacional do Campo Limpo destaca e celebra sustentabilidade, logística reversa, preservação da fauna, educação ambiental e saúde mental no meio rural. Fotos Toninho Anhaia
A representante do Instituto Água e Terra (IAT), Vera Solange Carpen, reforçou durante o evento que a logística reversa tem papel importante na redução da presença de resíduos de defensivos agrícolas no meio ambiente. “Se a gente não tivesse isso, o nosso meio rural estaria cheio de embalagens.”
Para Vera, a interação entre poder público, agricultores e a estrutura responsável pelo recebimento das embalagens é fundamental para que o sistema funcione.
Ela também chamou a atenção para a responsabilidade do produtor na devolução dos recipientes utilizados. “Quanto mais eles fizerem, mais eles entregarem as embalagens, menos resíduos, menos produtos, menos embalagens vão estar no meio rural.”
A orientação é especialmente importante porque a destinação das embalagens não deve ocorrer de maneira improvisada. O Sistema Campo Limpo estabelece procedimentos específicos para os diferentes tipos de materiais, incluindo embalagens laváveis e não laváveis.
O secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Ponta Grossa, Izaltino Cordeiro dos Santos, destacou que o município também trabalha para estimular boas práticas entre os produtores rurais, principalmente entre agricultores familiares e pequenas propriedades.
Segundo ele, a Secretaria Municipal de Agricultura atua com assistência técnica e orientação para melhorar os processos produtivos sem deixar de lado a preservação ambiental. “Nós temos feito um trabalho de assistência técnica, de orientação, principalmente na questão dos processos produtivos, orientando a parte técnica de produção, mas também orientando essas boas práticas.”
O secretário afirma que o trabalho busca mostrar ao produtor que é possível explorar economicamente a propriedade sem comprometer recursos naturais. “É um trabalho que hoje a secretaria tem feito junto com os pequenos produtores, fazendo contrato, inclusive, que é o nosso caso, o programa Feira Verde.”
Na avaliação de Izaltino, ações relacionadas à coleta e ao aproveitamento de resíduos ajudam a manter tanto o campo quanto a cidade mais limpos e contribuem para a preservação do meio ambiente.
O vice-prefeito de Ponta Grossa, Pastor Moisés Faria, também destacou a importância da união entre produtores, indústria, poder público e entidades ligadas à logística reversa. “Nós somos parceiros de todo movimento que fala em preservação, em preservar o meio ambiente, cuidar do meio ambiente.”
Para ele, o principal resultado desse tipo de iniciativa aparece quando diferentes setores assumem responsabilidades dentro de uma mesma cadeia. “Então vemos realmente aqui união de forças e divisão de tarefas, onde quem é beneficiado é o povo e a preservação do meio ambiente também, preservando para os nossos filhos, para os nossos netos, pensando realmente no futuro.”
Moisés também destacou as ações desenvolvidas pelo município para fortalecer a agricultura familiar, incluindo iniciativas relacionadas à merenda escolar, manutenção das estradas rurais e capacitação dos produtores. “A prefeitura de Ponta Grossa, a prefeita Elizabeth, nós estamos sempre preocupados em incentivar e fortalecer o pequeno agricultor, porque sabemos que o agro move o Brasil.”
Entre os produtores homenageados durante o evento estiveram Audacir Lava, Gerson Surek, Geert Germain Dewulf, Chris Dewulf, Mariza Sleutjes Kiers, Affonso Weigert de Saldanha e Adriano Augusto Weigert Saldanha.
O reconhecimento valorizou a trajetória de produtores que contribuem para o fortalecimento da agropecuária, com compromisso, responsabilidade e excelência no desenvolvimento de práticas voltadas à sustentabilidade no campo.
Entre os produtores homenageados durante o evento estava Afonso Saldanha, que trabalha com aproximadamente 540 hectares de lavoura e 460 hectares de pecuária de corte na região de Itaiacoca, em Ponta Grossa.
Para ele, receber o reconhecimento pelas práticas conservacionistas adotadas na propriedade representa uma forma de mostrar que sustentabilidade e produção podem caminhar juntas. “É bom ser reconhecido por um trabalho que a gente se esmera, se esforça. E acho que é bom para poder dar publicidade para isso, mostrar para outros produtores a importância da reciclagem.”
Na propriedade, o cuidado começa antes mesmo da devolução das embalagens. A gestão do estoque e a utilização correta dos produtos fazem parte da estratégia para evitar desperdícios. “A gente tem a gestão do estoque, para também não ter desperdício. A correta utilização também na hora de abastecer os equipamentos para não ter desperdício.”
Para Afonso, preservar o meio ambiente deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a representar também uma condição para a continuidade da atividade rural.
“A gente é obrigado, entre aspas, a preservar o meio ambiente porque é o que vai dar continuidade para o nosso negócio.”
A preocupação, segundo ele, ultrapassa a geração atual e envolve também a família e quem dará continuidade à propriedade no futuro.
A programação do Dia do Campo Limpo também ampliou a discussão sobre sustentabilidade para além das embalagens agrícolas.
O médico veterinário Robson Carlos Klimionte palestrou sobre os animais silvestres encontrados nos Campos Gerais e chamou a atenção para uma situação comum, mas que pode causar problemas: o resgate desnecessário de filhotes.
Segundo ele, a região possui uma fauna diversificada, com aves, répteis, serpentes, grandes mamíferos e espécies como a suçuarana, o lobo-guará e o quati.“A nossa maior preocupação é a questão do equilíbrio entre o humano e o animal.”
Robson explica que encontrar um filhote sozinho não significa necessariamente que ele esteja abandonado. Em muitos casos, os pais estão próximos, acompanhando o desenvolvimento do animal. “Se você vê um filhote sozinho, provavelmente os pais estão por perto, deixando ele ali por conta para ele aprender e ir buscando o mundo.”
Por isso, a recomendação é não interferir quando o animal estiver saudável e fora de situação de risco. “Se o animal está ali, não está machucado, não está agredindo, não está em perigo, deixa ele quietinho.”
Quando houver ferimentos ou uma situação que realmente exija intervenção, a orientação é procurar os órgãos responsáveis. O veterinário cita o Instituto Água e Terra e a Polícia Ambiental do Paraná como referências para esses casos.
A preocupação aumenta com a chegada da primavera, período em que ocorre maior atividade reprodutiva de diversas espécies.
“Antes de fazer qualquer resgate, as pessoas têm aquela ideia de ‘vamos cuidar, vamos resgatar’. Antes de tudo, tem que ver se realmente precisa ser resgatado.”

Outro tema abordado durante a programação foi a saúde mental de produtores e famílias rurais. O psicólogo Maykel Souza falou sobre a necessidade de quebrar o conceito cultural de que o homem e a mulher do campo precisam ser sempre fortes e não podem demonstrar dificuldades emocionais.
Para ele, uma das formas de mudar essa realidade é falar mais sobre saúde mental e levar o assunto para dentro das famílias e das empresas.“Muitas pessoas não procuram ajuda porque ainda não entenderam a importância da saúde mental.”
O profissional também destaca o papel do exemplo dentro das famílias. Segundo ele, comportamentos são aprendidos e repetidos, o que torna importante que pais e responsáveis também observem a própria maneira de lidar com problemas. “Nós como seres humanos aprendemos a replicar comportamentos. A gente aprende mais olhando e repetindo do que escutando.”
No campo, a pressão pode vir de diferentes situações: problemas com máquinas, condições climáticas, preços, dificuldades de produção e sucessão familiar.
Maykel chama atenção especialmente para a sucessão. Para ele, é preciso avaliar qual imagem da atividade rural está sendo transmitida para as próximas gerações. “Se o filho entende que aquilo trouxe sofrimento, talvez ele não queira assumir e ele assuma só mesmo por um sentimento de responsabilidade, de compromisso.”
Por isso, a comunicação dentro da família precisa fazer parte da gestão da propriedade. “Nós sempre aprendemos a trabalhar, ser fortes e esquecemos dessa questão afetiva de comunicação.”

A sustentabilidade também foi levada para o debate sobre educação. Priscila Pauliki Solek, coordenadora educacional de Projetos da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Carambeí, explicou que o Programa de Educação Ambiental Campo Limpo busca aproximar a teoria da realidade vivenciada pelos estudantes.
Segundo ela, as crianças podem atuar como agentes de transformação dentro das próprias famílias. “As nossas crianças, através desses projetos, são agentes transformadores, principalmente ao levar as informações do projeto para as famílias.”
Priscila cita especialmente a realidade das escolas rurais de Carambeí, onde os estudantes convivem diretamente com pequenos produtores e podem observar conceitos como economia circular na prática. “É aquela ação que você tira da teoria e leva para a prática transformadora.”
Para a coordenadora, trabalhar sustentabilidade com as novas gerações significa construir hábitos que podem permanecer ao longo do tempo. “Nós precisamos nos preocupar com o futuro do nosso planeta. E quem é o futuro do nosso planeta hoje? São as crianças, adolescentes e jovens.”
A programação realizada em Ponta Grossa mostrou que o conceito de Campo Limpo vai muito além da simples devolução de uma embalagem.
O sistema envolve uma cadeia de responsabilidades que começa na propriedade rural e passa pelos canais de distribuição, associações, indústria e poder público. O próprio Sistema Campo Limpo define essa atuação conjunta como um dos pilares da logística reversa de embalagens vazias de defensivos agrícolas.
Mais do que uma data no calendário, o Dia Nacional do Campo Limpo se tornou, nos Campos Gerais, uma oportunidade para aproximar a comunidade do campo e mostrar que preservar o ambiente não é uma tarefa isolada. É uma construção diária, feita por quem produz, por quem orienta, por quem fiscaliza, por quem educa e por quem entende que o futuro da produção depende também da conservação dos recursos naturais.





