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O Brasil à beira do abismo: investimento, tributação e competitividade

O Brasil não corre o risco de cair numa armadilha de baixo crescimento: vive nela. Há séculos repete o mesmo erro, de ciclo em ciclo, do açúcar ao ouro, do café às commodities, sem converter a riqueza que extrai em capital que produza.

Por: Redação Fonte: Vinícius Brizola de Oliveira
28/10/2026 às 18h38
O Brasil à beira do abismo: investimento, tributação e competitividade
Vinícius Brizola de Oliveira

O Brasil fechou 2025 investindo 16,8% do PIB e poupando 14,4%, com uma dívida bruta que alcançou 82,9% do produto em agosto de 2026. No mesmo ano, caiu sete posições no ranking de competitividade do IMD e chegou ao 65º lugar entre 70 economias. Isoladamente, cada número é um alerta. Em conjunto, revelam um país que consome mais capital do que forma.

Ludwig von Mises sustentava, em Ação Humana, que a única fonte duradoura de aumento dos salários reais é a elevação do capital disponível por trabalhador. Ferramentas, máquinas e infraestrutura nascem de poupança, isto é, de consumo presente adiado. Sob essa lente, “afundar de vez” não significa uma moratória à moda dos anos 1980, mas algo mais corrosivo: um país que, década após década, deixa de acumular o capital que tornaria seu trabalho mais produtivo.

A formação bruta de capital fixo recuou de cerca de 20% do PIB no fim de 2013 para 16,8% em 2025, longe dos 25% frequentemente apontados como necessários para um crescimento sustentado de 5% ao ano. Na teoria misesiana, a taxa de juros é o preço que coordena a poupança das famílias com os projetos de investimento das empresas. No Brasil, esse preço deixou de refletir a preferência temporal da sociedade para refletir a necessidade de financiamento do Estado. A conta de juros do setor público chegou a R$ 1,18 trilhão em doze meses até agosto de 2026, cerca de 8,9% do PIB, e o déficit nominal tocou 10% do produto em junho. Com a Selic a 13,75% e juro real perto de 9%, o país ficou em último lugar no quesito custo de capital do IMD.

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O Tesouro disputa a poupança disponível com o setor privado e vence. Mises descrevia o gasto público financiado por dívida como transferência de recursos, não criação de riqueza: cada real absorvido para custeio é um real que deixa de financiar uma fábrica, uma estrada ou um software. A Instituição Fiscal Independente projeta dívida de 115% do PIB em 2036 se nada mudar. Nessa trajetória, o investimento público, espremido pelas despesas obrigatórias, vira variável de ajuste, e o privado espera.

A reforma tributária do consumo, instituída pela EC 132/2023 e pela LC 214/2025, é no desenho a melhor em décadas: um IVA dual, não cumulativo, cobrado no destino e com crédito amplo. Depois do ano-teste de 2026, a CBS entra em vigor plena em 2027, e o novo sistema só opera sozinho em 2033. O problema está na calibragem. A lei fixou um teto de 26,5% para a alíquota de referência, mas o Comitê Gestor do IBS já trabalha com uma estimativa de 27,91%, uma das maiores do mundo. A alíquota alta é a fatura das exceções, e aqui a advertência de Mises sobre o intervencionismo é precisa: cada privilégio setorial gera uma distorção que justifica o próximo privilégio, até que o sistema neutro original se torne uma colcha de remendos.

O peso recai sobre o pequeno empreendedor. Com o split payment, previsto pela Receita para o segundo semestre de 2027, de início opcional e só entre empresas, IBS e CBS passam a ser separados automaticamente no momento do pagamento, sem transitar pelo caixa do vendedor. Para quem financia o capital de giro com esse intervalo, é a perda de um colchão de liquidez num mercado em que o crédito custa várias vezes a Selic. Além disso, a empresa do Simples só transfere ao cliente crédito equivalente ao que recolhe no DAS, e estudo do IBPT indica que mais de 70% delas vendem para outras empresas. Mises já observava que a tributação pesada sobre a acumulação de capital protege os grandes estabelecidos contra os novos concorrentes, porque impede o entrante de formar o patrimônio necessário para desafiá-los. O risco não é que sobrem apenas os grandes, já que o Simples foi preservado e há a opção de recolher por fora. O risco é um sistema que, sem calibragem, empurre o pequeno para a informalidade ou para fora do mercado.

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“O Brasil não afunda por falta de boia. Afunda porque passou a remunerar melhor quem fica parado na margem do que quem se atreve a nadar.”

Os números de competitividade completam o quadro. O Brasil ocupava a 38ª posição no ranking do IMD em 2010 e caiu para a 65ª em 2026, com piora nos quatro pilares e último lugar em educação básica. Segundo o FGV Ibre, a produtividade do trabalho cresceu apenas 0,1% em 2024 e 0,4% em 2025. Na indústria, a produtividade por hora caiu cerca de 23% entre 1995 e 2024, e a participação do setor no PIB recuou de 48% em 1985 para 24,7% em 2024. O crescimento das últimas três décadas veio sobretudo de mais gente trabalhando, não de mais eficiência, e o fim do bônus demográfico esgota esse motor.

Mises e Hayek ajudam a entender por quê. O empresário só calcula se os preços forem informativos e as regras, estáveis. Juros determinados pela dívida pública, tributos que mudam por exceção e uma média de 2,36 normas editadas por hora útil entre 1988 e 2025 corroem esse cálculo. O contraste é o agronegócio: exposto a preços internacionais e com ganhos de produtividade de 13,2% em 2025, mostra o que acontece quando o sinal de preço chega limpo ao produtor.

O rigor exige reconhecer o que contradiz a tese do naufrágio. O PIB cresceu 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025, e o desemprego encerrou 2025 em 5,6%, mínima histórica. A dívida é majoritariamente interna e em reais, as reservas são elevadas e o câmbio é flutuante. Também é preciso registrar que a leitura austríaca é uma entre várias: economistas keynesianos e desenvolvimentistas atribuem papel maior ao investimento público e à política industrial, e a evidência empírica sobre o efeito do gasto estatal no crescimento segue disputada. A distinção relevante é entre colapso e estagnação, e só a segunda está nos dados.

O Brasil não afunda de vez por um choque. Afunda pela soma de escolhas que tornam racional não investir. Os três vetores têm o mesmo ponto de alavanca, o regime fiscal. Uma âncora crível, com revisão das despesas obrigatórias, devolveria aos juros a função de sinalizar a poupança real da sociedade. A defesa da base ampla do IVA conteria a espiral de exceções. E uma agenda de produtividade, com abertura comercial, segurança regulatória e foco em educação básica, restauraria a capacidade de cálculo do empresário. O país já provou, no campo, que sabe produzir com padrão mundial.

O desafio é levar essa lógica para a fábrica, para os serviços e, sobretudo, para o Estado.

Economia e Agro
Economia e Agro
A Coluna Economia e Agro é escrita pelo economista Vinícius Brizola de Oliveira, atual Secretário da Fazenda do município de Piraí do Sul, nos Campos Gerais, que conhece o potencial econômico da região. Já trabalhou por mais de uma década no setor do agronegócio na área de finanças e, hoje, no setor público, complementa sua visão sobre as necessidades da região.
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