
O Brasil fechou 2025 investindo 16,8% do PIB e poupando 14,4%, com uma dívida bruta que alcançou 82,9% do produto em agosto de 2026. No mesmo ano, caiu sete posições no ranking de competitividade do IMD e chegou ao 65º lugar entre 70 economias. Isoladamente, cada número é um alerta. Em conjunto, revelam um país que consome mais capital do que forma.
Ludwig von Mises sustentava, em Ação Humana, que a única fonte duradoura de aumento dos salários reais é a elevação do capital disponível por trabalhador. Ferramentas, máquinas e infraestrutura nascem de poupança, isto é, de consumo presente adiado. Sob essa lente, “afundar de vez” não significa uma moratória à moda dos anos 1980, mas algo mais corrosivo: um país que, década após década, deixa de acumular o capital que tornaria seu trabalho mais produtivo.
A formação bruta de capital fixo recuou de cerca de 20% do PIB no fim de 2013 para 16,8% em 2025, longe dos 25% frequentemente apontados como necessários para um crescimento sustentado de 5% ao ano. Na teoria misesiana, a taxa de juros é o preço que coordena a poupança das famílias com os projetos de investimento das empresas. No Brasil, esse preço deixou de refletir a preferência temporal da sociedade para refletir a necessidade de financiamento do Estado. A conta de juros do setor público chegou a R$ 1,18 trilhão em doze meses até agosto de 2026, cerca de 8,9% do PIB, e o déficit nominal tocou 10% do produto em junho. Com a Selic a 13,75% e juro real perto de 9%, o país ficou em último lugar no quesito custo de capital do IMD.
O Tesouro disputa a poupança disponível com o setor privado e vence. Mises descrevia o gasto público financiado por dívida como transferência de recursos, não criação de riqueza: cada real absorvido para custeio é um real que deixa de financiar uma fábrica, uma estrada ou um software. A Instituição Fiscal Independente projeta dívida de 115% do PIB em 2036 se nada mudar. Nessa trajetória, o investimento público, espremido pelas despesas obrigatórias, vira variável de ajuste, e o privado espera.
A reforma tributária do consumo, instituída pela EC 132/2023 e pela LC 214/2025, é no desenho a melhor em décadas: um IVA dual, não cumulativo, cobrado no destino e com crédito amplo. Depois do ano-teste de 2026, a CBS entra em vigor plena em 2027, e o novo sistema só opera sozinho em 2033. O problema está na calibragem. A lei fixou um teto de 26,5% para a alíquota de referência, mas o Comitê Gestor do IBS já trabalha com uma estimativa de 27,91%, uma das maiores do mundo. A alíquota alta é a fatura das exceções, e aqui a advertência de Mises sobre o intervencionismo é precisa: cada privilégio setorial gera uma distorção que justifica o próximo privilégio, até que o sistema neutro original se torne uma colcha de remendos.
O peso recai sobre o pequeno empreendedor. Com o split payment, previsto pela Receita para o segundo semestre de 2027, de início opcional e só entre empresas, IBS e CBS passam a ser separados automaticamente no momento do pagamento, sem transitar pelo caixa do vendedor. Para quem financia o capital de giro com esse intervalo, é a perda de um colchão de liquidez num mercado em que o crédito custa várias vezes a Selic. Além disso, a empresa do Simples só transfere ao cliente crédito equivalente ao que recolhe no DAS, e estudo do IBPT indica que mais de 70% delas vendem para outras empresas. Mises já observava que a tributação pesada sobre a acumulação de capital protege os grandes estabelecidos contra os novos concorrentes, porque impede o entrante de formar o patrimônio necessário para desafiá-los. O risco não é que sobrem apenas os grandes, já que o Simples foi preservado e há a opção de recolher por fora. O risco é um sistema que, sem calibragem, empurre o pequeno para a informalidade ou para fora do mercado.
“O Brasil não afunda por falta de boia. Afunda porque passou a remunerar melhor quem fica parado na margem do que quem se atreve a nadar.”
Os números de competitividade completam o quadro. O Brasil ocupava a 38ª posição no ranking do IMD em 2010 e caiu para a 65ª em 2026, com piora nos quatro pilares e último lugar em educação básica. Segundo o FGV Ibre, a produtividade do trabalho cresceu apenas 0,1% em 2024 e 0,4% em 2025. Na indústria, a produtividade por hora caiu cerca de 23% entre 1995 e 2024, e a participação do setor no PIB recuou de 48% em 1985 para 24,7% em 2024. O crescimento das últimas três décadas veio sobretudo de mais gente trabalhando, não de mais eficiência, e o fim do bônus demográfico esgota esse motor.
Mises e Hayek ajudam a entender por quê. O empresário só calcula se os preços forem informativos e as regras, estáveis. Juros determinados pela dívida pública, tributos que mudam por exceção e uma média de 2,36 normas editadas por hora útil entre 1988 e 2025 corroem esse cálculo. O contraste é o agronegócio: exposto a preços internacionais e com ganhos de produtividade de 13,2% em 2025, mostra o que acontece quando o sinal de preço chega limpo ao produtor.
O rigor exige reconhecer o que contradiz a tese do naufrágio. O PIB cresceu 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025, e o desemprego encerrou 2025 em 5,6%, mínima histórica. A dívida é majoritariamente interna e em reais, as reservas são elevadas e o câmbio é flutuante. Também é preciso registrar que a leitura austríaca é uma entre várias: economistas keynesianos e desenvolvimentistas atribuem papel maior ao investimento público e à política industrial, e a evidência empírica sobre o efeito do gasto estatal no crescimento segue disputada. A distinção relevante é entre colapso e estagnação, e só a segunda está nos dados.
O Brasil não afunda de vez por um choque. Afunda pela soma de escolhas que tornam racional não investir. Os três vetores têm o mesmo ponto de alavanca, o regime fiscal. Uma âncora crível, com revisão das despesas obrigatórias, devolveria aos juros a função de sinalizar a poupança real da sociedade. A defesa da base ampla do IVA conteria a espiral de exceções. E uma agenda de produtividade, com abertura comercial, segurança regulatória e foco em educação básica, restauraria a capacidade de cálculo do empresário. O país já provou, no campo, que sabe produzir com padrão mundial.
O desafio é levar essa lógica para a fábrica, para os serviços e, sobretudo, para o Estado.