
A canola está deixando de ser uma aposta de poucos produtores para ganhar espaço no sistema agrícola dos Campos Gerais. O avanço de novas tecnologias, a ampliação do mercado e a busca por alternativas de diversificação levou produtores, empresas e especialistas a se reunirem na segunda-feira (17) de agosto de 2026, na Fazenda Tronco, em Carambeí, durante um Dia de Campo dedicado à cultura.
O encontro reuniu representantes da Cargill, Nufarm, Castrolanda e Grupo Calpar e colocou em discussão uma questão que começa a ganhar importância nas propriedades da região: a canola pode se tornar uma alternativa rentável e estratégica para o inverno paranaense?
Para o diretor de Trading da Cargill, Luís Guilherme Caldeira Jorge Neves, um dos principais diferenciais da cultura está justamente no potencial de geração de óleo.
“Canola é uma cultura muito interessante do ponto de vista do teor de óleo. Quando você compara com outras culturas tradicionais, a soja tem cerca de 20% de óleo, enquanto a canola chega ao dobro dessa porcentagem”, explica.
Segundo ele, o cenário de expansão dos biocombustíveis aumenta o interesse pela cultura, já que o óleo vegetal é uma das matérias-primas utilizadas nesse mercado. Além disso, a canola pode ser incorporada ao sistema de rotação de culturas e aproveitar parte da estrutura já utilizada pelo produtor na soja.
“Você consegue usar muitos dos insumos e das máquinas que utiliza na soja para a canola. E a liquidez, o mercado está vendo com muito bons olhos a canola, não somente no Brasil, mas também lá fora”, destaca Luís.
Um dos principais questionamentos de quem pensa em plantar uma nova cultura é justamente saber para quem vender a produção. Na avaliação da Cargill, o desenvolvimento da cadeia depende da construção de parcerias entre produtores, indústrias, empresas de insumos, armazenagem e comercialização.
“É olhar todo o setor junto. Cargill, indústrias, tradings, empresas de insumo e produtores, para traçarmos um caminho saudável para a cultura”, afirma Luís.
Ele destaca que o produtor precisa ter segurança no momento da comercialização, seja por meio de troca de insumos, financiamento ou venda da produção.
A empresa também sinaliza que pretende participar do crescimento da cadeia no Paraná e não apenas adquirir uma safra pontualmente.
“A gente não veio simplesmente comprar uma safra e sair daqui. Temos uma demanda muito regular por canola. Estamos desenvolvendo cada vez mais produtos à base de canola com os nossos clientes e temos total interesse em crescer nesse mercado”, afirma o diretor de Trading.

A perspectiva também é positiva para a supervisora de vendas da Cargill, Vanessa Ladwig. Para ela, a aproximação entre empresas e produtores é importante para levar conhecimento e mostrar, na prática, o avanço da cultura. “O objetivo desse evento é trazer mais conhecimento aos produtores dessa cultura, para que ele veja na prática tudo que está se desenvolvendo com relação à canola, novas cultivares e oportunidades de mercado”, explica.
Vanessa acredita que o Paraná pode assumir uma posição de destaque na produção nacional.
“Eu acredito que o Paraná vai ser o novo polo da canola no Brasil e, em um prazo de cinco anos, nós iremos ser conhecidos nacionalmente como o polo da canola no Brasil”, projeta.
Os números apresentados pela Cooperativa Castrolanda mostram que o interesse pela cultura já aparece dentro das propriedades. Segundo o gerente de Estratégia e Comunicação da cooperativa, Vitor Almeida Fonseca, a área cultivada com canola pela Castrolanda passou de aproximadamente 600 hectares para 2.400 hectares na última safra.
“Percebemos uma evolução muito grande. Claro, são áreas pequenas em comparação às nossas outras culturas, mas esse crescimento mostra um otimismo bem grande dos nossos produtores”, afirma.
Para Vitor, a canola representa uma alternativa importante de diversificação. “A Castrolanda busca constantemente formas de diversificação para os produtores. A gente sabe que, quando uma cultura vai mal, outras vão bem. Então, para o produtor, é importante ter diferentes alternativas”, explica.
Outro ponto destacado por ele é a evolução do manejo. Problemas que no passado geravam receio entre os produtores, como o mofo branco, estão mais controlados graças ao avanço da genética e das técnicas utilizadas no campo.
“Alguns tabus do passado estão sendo superados. Hoje a gente tem uma tecnologia que avançou muito e formas de manejo que também evoluíram”, destaca.

Para quem está tomando a decisão dentro da propriedade, a cultura também aparece como uma ferramenta de planejamento. O gerente de Originação da Cargill, Vinícius de Carvalho Figueiredo, explica que a canola pode ser incorporada ao sistema de produção como uma alternativa de diversificação e rotação.
“Não existe uma bala de prata, não existe uma poção mágica. Mas, dentro das possibilidades, com bom planejamento e na escolha da área, é uma boa opção”, afirma.
A cultura também apresenta possibilidades de uso tanto para alimentação humana quanto para biocombustíveis.
“Ela tem sido muito puxada agora na esteira dos óleos. O Brasil tem uma grande vocação para os biocombustíveis e a canola vem com uma possibilidade a mais também nessa questão”, explica Vinícius.
Para ele, a cultura merece ser novamente avaliada pelos produtores da região. “A canola teve um passado aqui que não foi muito bem-sucedido, mas mudou. Os híbridos evoluíram, o manejo evoluiu. Então, ela tem tudo para você reavaliar e considerar no seu sistema de produção”, afirma.

Na Fazenda Tronco do Grupo Calpar, a decisão de trabalhar com canola também está relacionada ao planejamento da propriedade. O gestor da divisão agrícola do Grupo Calpar, Guilherme Bertolini, explica que a cultura foi escolhida como uma alternativa diante dos desafios climáticos enfrentados pelo trigo.
“Devido aos desafios de clima, a gente tem a atividade econômica do inverno, o trigo. Como todo mundo na região planta trigo, a gente optou por entrar com a canola devido ao risco climático”, explica.
Outro fator considerado foi a janela entre a colheita da canola e o plantio da soja. Na propriedade, o plantio ocorre entre os dias 20 e 25 de abril, com colheita prevista para a metade de setembro. Dessa forma, existe tempo para a entrada da soja em outubro, dentro da janela preferencial da região.
A área cultivada pelo Grupo Calpar atualmente é de aproximadamente 215 hectares, distribuída em duas fazendas. A expectativa é dobrar a área no próximo ano.
“Ela entra na rotação da nossa região muito bem por causa da época de plantio. É uma atividade econômica rentável e de custo barato por hectare”, afirma Guilherme.
Para quem ainda tem receio de experimentar a cultura, a recomendação é começar pequeno. “Eu acho que vale a pena, porque ela entra na rotação muito bem. Hoje tem comprador firme para isso e tem lugar onde beneficiar. Tem a Cargill como parceira na parte de negócios e a Cooperativa Castrolanda também, então fica muito seguro para o produtor entrar”, destaca.

Se o mercado é uma das pontas dessa cadeia, a tecnologia é outra. O coordenador Técnico de Mercado da Nufarm, Robson Antônio Botta, explica que mudanças na genética e no manejo ajudaram a superar limitações que dificultavam o avanço da canola no passado.
Segundo ele, o crescimento da cultura no Rio Grande do Sul nos últimos anos mostra o potencial que pode ser explorado também em outras regiões. No Paraná, a chegada de novos compradores e o aumento da demanda ajudam a resolver uma das principais dúvidas do produtor: onde entregar a produção.
“Agora, com novas empresas entrando, como a Cargill aqui no Paraná, aumentou a demanda pelo grão e pelo óleo de canola”, explica Robson.
A tecnologia também avançou no controle de plantas daninhas. A Nufarm trabalha com materiais tolerantes a diferentes grupos de herbicidas, permitindo maior flexibilidade no manejo. Mas, segundo Robson, o sucesso da lavoura começa antes mesmo do plantio. “A escolha da área é importantíssima”, alerta.
Ele explica que alguns herbicidas utilizados anteriormente em outras culturas podem apresentar residual no solo e interferir no desenvolvimento da canola. Por isso, o planejamento precisa começar ainda na cultura anterior.
Além da escolha da área, Robson destaca outros dois pilares: fertilidade do solo e genética. “São três pilares básicos para o sucesso de uma lavoura de canola: herbicidas, fertilidade do solo e híbrido, tecnologia”, resume.
Outro ponto positivo é que o produtor não precisa necessariamente adquirir máquinas específicas. “Ele não precisa comprar nenhum equipamento diferente do que já tem. Os equipamentos que utilizamos na soja, a exemplo da plantadeira e colheitadeira, podem ser utilizados para plantar e colher a canola”, explica.

O avanço da cultura também está ligado à possibilidade de diferentes mercados para o produto. De acordo com Robson, a produção pode ser direcionada ao consumo humano, exportação e biocombustíveis. Na região dos Campos Gerais, existe ainda a possibilidade de ampliar o processamento regional.
“Esse grão, nesse primeiro momento, vai ser esmagado aqui na região de Candói. Mas estão sendo feitos estudos da possibilidade de ter outras fábricas para esmagar esse grão aqui na região de Ponta Grossa”, afirma.
A expectativa apresentada pela Nufarm é de que a produção nacional continue crescendo, com planejamento de chegar a 1 milhão de hectares de canola no Brasil até 2030. Para o produtor, a mensagem é que o crescimento da área não significa necessariamente falta de mercado.
“O produtor pode ter certeza de que vai ter liquidez desse grão, principalmente por causa desses três destinos: consumo humano, exportação e também biocombustível”, destaca Robson.
Na Fazenda Tronco do Grupo Calpar, a experiência prática também mostra que alguns cuidados básicos podem fazer diferença no estabelecimento da lavoura. O operador de máquinas Daniel Antônio Bueno explica que a profundidade de plantio é um dos principais pontos de atenção.
“Você tem que cuidar da profundidade. Não pode deixar muito fundo, senão ela não nasce”, orienta.
Na área visitada durante o Dia de Campo, a profundidade utilizada ficou entre 1,5 e 2 centímetros. Outro cuidado é utilizar o disco adequado para garantir a correta distribuição das pequenas sementes.

O comprador do Grupo Calpar e responsável pelo manejo defensivo, João Pedro Mocelin, explica que o acompanhamento frequente da lavoura também é fundamental. Na área da Fazenda Tronco, houve uma dessecação antes do plantio, seguida por aplicações voltadas ao controle de insetos e uma aplicação de fungicida.
Para João Pedro, o produtor precisa estar atento ao desenvolvimento da cultura e identificar rapidamente possíveis problemas.
“É importante entrar de forma preventiva e estar avaliando a lavoura diariamente para tentar identificar o mofo caso ele ocorra no início e minimizar os estragos”, explica.
Ele também reforça a importância do monitoramento para identificar corretamente os insetos antes de definir qual estratégia de controle será utilizada.
Além da produção e da comercialização, o desenvolvimento da canola nos Campos Gerais pode abrir espaço para o fortalecimento de uma cadeia regional. O representante da Castro Óleos Vegetais, Railson Guse, vê potencial na aproximação entre produtores, empresas e indústria.
“É muito interessante. Como indústria de óleo regional, eu vejo isso muito promissor para frente”, afirma.
Segundo ele, a possibilidade de produzir, processar e comercializar dentro de uma mesma região pode trazer vantagens para todos os envolvidos. “Você tendo a planta certa para região, tendo o fomento e tendo onde esmagar esse produto e para quem vender esse subproduto, tanto o farelo quanto o óleo, isso se torna muito interessante”, destaca.
A empresa já realizou testes com canola e, segundo Railson, os resultados de extração foram positivos.
“A canola foi muito bem na questão da extração. Eu vejo como muito promissor”, afirma.

O Dia de Campo mostrou que a expansão da canola no Paraná não depende de um único fator. Existe uma combinação entre mercado, tecnologia, genética, planejamento agrícola e diversificação.
A cultura ainda representa uma parcela pequena diante das principais commodities agrícolas da região, mas os sinais apresentados durante o evento apontam para um cenário de expansão.
E, para quem ainda não conhece a canola, a recomendação de quem já está trabalhando com a cultura é simples: começar, testar e acompanhar os resultados.
Como resume Guilherme Bertolini, do Grupo Calpar: “É uma cultura que já foi desmistificada. As variedades são mais resistentes, têm mais produtividade e custo mais barato. Eu acho viável todo mundo experimentar. Vai com 10 hectares, 5 hectares, mas começar.”