
A sucessão familiar pode ser uma das principais estratégias para garantir a continuidade das propriedades rurais e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novas atividades e modelos de negócio no campo. Em Castro, nos Campos Gerais do Paraná, essa realidade ganhou destaque durante o Café do Produtor Rural, realizado na quarta-feira, 9 de setembro, no Sindicato Rural de Castro.
O encontro reuniu produtores rurais e lideranças do setor para discutir a continuidade das famílias no campo, a diversificação da atividade leiteira e o potencial da produção de queijos artesanais como forma de agregar valor à produção rural.
Um dos exemplos apresentados foi o da produtora rural Vanice Gomes Carneiro, proprietária da queijaria Sabores Família Carneiro. A história da família mostra como uma tradição transmitida entre gerações pode ganhar novos formatos quando uma nova geração assume participação mais ativa na propriedade.
Formada em Pedagogia e atualmente estudante de Medicina Veterinária, Vanice cresceu acompanhando a produção de queijos da família. Segundo ela, a tradição começou muito antes de seu nascimento e foi incorporada naturalmente à sua trajetória.
"Essa tradição nasceu há muitos anos. Muito antes de eu existir, ela já existia. Eu acompanhei essa tradição desde muito pequena. Desde a minha infância eu participava desse mundo e, com o decorrer dos anos, fui me integrando mais, participando mais e hoje estou mais à frente dessa produção e tendo essa sucessão familiar", relatou.
A experiência mostra que sucessão familiar não significa apenas substituir uma geração por outra na administração da propriedade. Na prática, o processo pode acontecer gradualmente, com os mais jovens participando das atividades, adquirindo conhecimento e, posteriormente, assumindo novas responsabilidades.
Vanice conta que esse processo ocorreu de maneira natural dentro da família. "Eu já participo. Como eu já falei, eu nasci nesse meio, saí, depois retornei, mas eu nunca me afastei de lá. Então, a sucessão familiar foi acontecendo de uma forma bem natural, aos poucos, e agora está ganhando mais corpo", explicou.

Em uma região reconhecida pela força da atividade leiteira, a transformação do leite em produtos diferenciados representa uma possibilidade de ampliar o valor gerado dentro da própria propriedade.
A Sabores Família Carneiro iniciou recentemente um processo de formalização da produção comercial. Atualmente, a queijaria trabalha com queijo frescal, mas já existem projetos para ampliar o portfólio.
"Atualmente, como nós iniciamos essa formalização há poucos meses, nós temos apenas o frescal, mas a gente tem projetos de expansão", afirmou Vanice.
Além da produção tradicional, a família também trabalha com leite de búfalas, agregando uma característica diferenciada à atividade.
Segundo a produtora, a família possui um plantel de búfalas e mantém há anos a produção de queijo a partir desse leite. "O nosso nicho dos queijos de búfalas vem de muitos anos que a gente já produz. Temos o plantel de búfalas e o queijo de búfala é mais saudável, é menos gorduroso. Para quem tem intolerância, a digestão dele é mais fácil", destacou.
A diversificação é especialmente relevante em uma cadeia como a do leite, na qual o produtor tradicionalmente comercializa uma matéria-prima que passa por diferentes etapas antes de chegar ao consumidor. Ao transformar parte dessa produção em queijo artesanal, a propriedade passa a atuar também na agregação de valor.
É justamente essa possibilidade que chamou a atenção do presidente interino do Sindicato Rural de Castro, Anselmo Westphal Neto. Para ele, a produção de queijos representa uma nova alternativa de renda dentro de uma cadeia que já possui enorme importância econômica para o município.
"É muito boa a visita da produtora rural de Castro, mostrando mais uma opção de renda no campo. É uma especiaria, a produção de queijos refinados, em uma cidade que é basicamente da cadeia do leite, que sustenta o agronegócio", avaliou.
A discussão sobre os queijos artesanais também se conecta a uma oportunidade que vai além da porteira: o turismo rural. Castro possui uma forte identidade ligada à produção agropecuária e à atividade leiteira. Nesse cenário, a criação de uma Rota do Queijo pode transformar propriedades produtoras em pontos de visitação e aproximar consumidores da origem dos alimentos.
Para Anselmo, a estruturação desse roteiro turístico cria uma oportunidade para que os produtores apresentem seus produtos diretamente aos visitantes.
"É um nicho de mercado dentro da cadeia do leite, produzindo queijos e com a possibilidade agora da estrutura montada para criar a Rota do Queijo, uma rota turística na cidade para explorar também a parte do turismo relacionado à cadeia leiteira", afirmou.
Na avaliação da liderança rural, os produtores que trabalham com queijos poderão integrar essa nova dinâmica, oferecendo ao visitante não apenas um produto, mas também uma experiência ligada à produção rural. "Ela pode ser incluída na produção de queijos para atender esses turistas e levar um produto diferenciado, um produto castrense para outras pessoas e outros municípios da região", acrescentou.
A proposta une três elementos que podem fortalecer a economia rural: produção, agregação de valor e turismo.
O visitante conhece a propriedade, entende como o alimento é produzido, compra diretamente do produtor e leva consigo um produto associado à identidade de Castro. Para o agricultor, isso significa diversificar canais de comercialização e criar novas possibilidades de renda.
Para Vanice, entretanto, transformar tradição em negócio exige mais do que uma boa oportunidade de mercado. É preciso disposição para enfrentar dificuldades e persistir diante dos desafios.
A produtora destaca que qualquer atividade apresenta obstáculos e que a continuidade da propriedade depende da capacidade de enfrentá-los.
"Os desafios, acho que qualquer atividade que você for se inserir, eles vão existir. Então você tem que ter coragem, persistência e não desistir ao encontrá-los. Sempre vai ter uma forma com que você vai conseguir superar", afirmou.
A fala reforça um aspecto importante da sucessão rural: a permanência dos jovens no campo não acontece apenas pela transmissão de patrimônio. Ela também depende da criação de perspectivas, autonomia e possibilidades para que a nova geração encontre sentido econômico e pessoal na atividade.
No caso da família Carneiro, a produção de queijos representa justamente essa combinação entre tradição e inovação.
A atividade preserva um conhecimento construído ao longo de gerações, mas também abre espaço para novos projetos, novos produtos e novas formas de chegar ao consumidor.
Ao falar sobre o futuro da atividade, Vanice resume a sucessão familiar como um compromisso com a própria história da família. Para ela, permanecer no campo e dar continuidade à produção representa mais do que uma escolha profissional. É uma maneira de preservar um conhecimento construído ao longo de gerações.
"Eu acho que é a persistência. A persistência de você querer. A sucessão familiar é o legado, de você não deixar essa tradição da família morrer. E a fé acima de tudo", afirmou.
A experiência apresentada no Café do Produtor Rural mostra que a sucessão familiar pode caminhar lado a lado com a diversificação e a busca por maior valor agregado.
Em uma região marcada pela força da pecuária leiteira, transformar parte dessa produção em queijos artesanais pode significar uma nova fonte de renda. Quando essa produção é conectada ao turismo rural, surge ainda a possibilidade de criar uma experiência que valoriza o território, a história das famílias e os produtos locais.
A relação mais próxima com o consumidor também faz parte desse novo modelo de negócio.
Os interessados nos produtos da Sabores Família Carneiro podem entrar em contato pelas redes sociais da queijaria. Segundo Vanice, o perfil no Instagram reúne informações sobre os produtos e disponibiliza o contato pelo WhatsApp.
"Podem me procurar através da página do Instagram, que é Sabores Família Carneiro. Lá tem meu WhatsApp, tem os produtos e podem estar me contatando por lá", orientou.
A venda direta é mais uma ferramenta que permite ao produtor estabelecer relacionamento com o consumidor e apresentar não apenas o produto final, mas também a história existente por trás dele.
No caso dos queijos artesanais, essa história pode ser um diferencial importante: o consumidor não compra somente um alimento, mas conhece a família, a propriedade, o modo de produção e a tradição que deram origem àquele produto.
Ver esse post no Instagram
A experiência da família Carneiro representa uma transformação que vem ganhando espaço no meio rural: a propriedade deixa de ser vista apenas como local de produção de commodities e passa a incorporar diferentes atividades capazes de gerar valor.
Em Castro, a força da cadeia leiteira cria uma base para esse movimento. A sucessão familiar mantém o conhecimento dentro das propriedades; a produção artesanal transforma matéria-prima em produtos diferenciados; a venda direta aproxima produtor e consumidor; e o turismo rural pode transformar tudo isso em experiência.
É nesse cruzamento entre tradição e inovação que a sucessão familiar encontra novas perspectivas para o agronegócio.
Mais do que garantir quem ficará na propriedade amanhã, sucessão significa criar condições para que a próxima geração possa permanecer no campo, inovar e encontrar novas formas de fazer a atividade rural continuar sendo economicamente viável.
Para Castro, onde o leite faz parte da identidade econômica e produtiva do município, iniciativas como a produção de queijos artesanais e a Rota do Queijo podem ajudar a transformar essa tradição em novas oportunidades para as famílias rurais.