
A produção de embriões em laboratório será uma das principais ferramentas para acelerar o melhoramento genético da raça Purunã no Paraná. O projeto foi lançado na última quinta-feira (20), em Ponta Grossa, nos Campos Gerais, pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP) e pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Com investimento de R$ 4,45 milhões do Fundo Paraná, a iniciativa prevê, ao longo de quatro anos, a implantação de dois laboratórios de produção in vitro, além da produção de aproximadamente 4.500 embriões. A estratégia é multiplicar animais de alto valor genético e ampliar a oferta de touros e matrizes capazes de contribuir para a evolução do rebanho paranaense.
Na prática, a tecnologia permitirá utilizar com muito mais intensidade as melhores vacas e os melhores touros identificados pelos programas de avaliação genética e genômica.
Para o secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná, Aldo Nelson Bona, o investimento em pesquisa é fundamental para transformar conhecimento científico em resultados para o setor produtivo.
Segundo ele, o projeto reúne universidades, instituições de pesquisa, estrutura laboratorial e recursos para desenvolver uma tecnologia de ponta voltada ao melhoramento genético do Purunã.
“Não há produto, não há nada que se desenvolva, que melhore sem ciência e tecnologia.”
Bona destaca que a produção in vitro poderá contribuir não apenas para aumentar o número de animais da raça, mas também para melhorar características importantes para a pecuária, como qualidade da carne e resistência aos desafios sanitários.
Entre os pontos destacados pelo secretário está a resistência ao carrapato, uma característica considerada estratégica para a pecuária. A expectativa é que o conjunto de pesquisas ajude a consolidar uma raça desenvolvida no Paraná e ampliar sua presença em outras regiões do país.
O secretário também relacionou o projeto ao aumento dos recursos destinados à ciência e tecnologia no Estado. De acordo com Bona, o Fundo de Ciência e Tecnologia passou de uma realidade orçamentária bastante restrita no início do atual governo para mais de R$ 600 milhões em execução neste ano.
Para ele, o Purunã é um exemplo de como o investimento público em pesquisa pode aproximar universidades, instituições de pesquisa e setor produtivo.

O professor e pesquisador da UENP, Bruno Ambrósio Galindo, explica que o projeto de produção de embriões complementa uma etapa que já vem sendo desenvolvida: a avaliação genômica dos animais.
Essa avaliação permite identificar quais são os melhores touros e as melhores vacas do rebanho. O problema é que a reprodução convencional limita a velocidade com que uma fêmea geneticamente superior consegue deixar descendentes.
“Uma vaca muito boa, ela vai deixar só um filho por ano.”
Com a produção de embriões in vitro, esse cenário muda. As melhores fêmeas podem ser submetidas à aspiração de oócitos e utilizadas de maneira muito mais intensa na reprodução. “As melhores vacas vão deixar ao invés de um único filho por ano, por geração, elas podem deixar dezenas.”
É justamente essa multiplicação que pode acelerar o ganho genético da raça. Como a genética dos descendentes resulta da combinação dos valores genéticos dos pais, a utilização sistemática de animais superiores aumenta a possibilidade de produzir uma nova geração com características desejáveis.
A meta do projeto é produzir 4.500 embriões em quatro anos, com expectativa de gerar cerca de 100 animais Purunã puros que poderão, posteriormente, atuar como reprodutores e matrizes melhoradores do rebanho.

Galindo destaca que existe hoje uma demanda por animais Purunã, tanto para reprodução quanto para produção de carne, mas a oferta ainda não é suficiente para atender ao mercado.
A expectativa é que os animais geneticamente superiores produzidos pelo projeto contribuam para ampliar o rebanho e, consequentemente, a disponibilidade de genética da raça.
O projeto também está conectado ao programa de fomento do IDR-Paraná e à Associação Brasileira de Criadores de Purunã, criando uma ponte entre a pesquisa e os produtores.
A ideia é que a genética superior não fique restrita aos centros de pesquisa ou a grandes criadores, mas possa chegar também a pequenos produtores.

Um dos principais legados do projeto será a estrutura física criada para desenvolver a reprodução animal.
Segundo Bruno Galindo, estão previstas duas estruturas de ponta: uma em Bandeirantes e outra em Palotina. Além da produção de embriões do Purunã, os laboratórios poderão ser utilizados futuramente em trabalhos com outras raças bovinas.
O projeto também prevê a formação de profissionais e pesquisadores capazes de dominar e aplicar as tecnologias de reprodução e melhoramento genético.
“O legado desse projeto é muito mais do que o melhoramento da raça Purunã, mas também uma tecnologia que vai ficar sob domínio do Estado.”

O pesquisador do IDR-Paraná, José Luiz Moleta, acompanha o desenvolvimento da raça há anos e considera que o projeto chega em um momento estratégico. Segundo ele, o Purunã já passou pela fase de desenvolvimento e chegada às propriedades. Agora, o desafio é aumentar a velocidade da seleção dos animais superiores.
O primeiro passo foi a implantação do projeto de avaliação genômica. Com a identificação dos animais de maior potencial produtivo, a reprodução assistida passa a ser uma ferramenta para multiplicar essa genética.
“Através de uma tecnologia de embriões, a gente consegue multiplicar em maior volume, com maior rapidez, com maior escala de produção.”
Moleta explica que uma vaca superior, na reprodução convencional, pode gerar apenas um produto por ano. Com a aspiração e produção de embriões, a mesma matriz pode contribuir para a geração de vários descendentes.
Na avaliação do pesquisador, isso deverá acelerar não apenas o melhoramento genético, mas também o crescimento da raça no Paraná e a expansão do Purunã para outros estados.
O avanço da pesquisa genômica do Purunã também conta com a participação de pesquisadores internacionais.
Bruno Galindo cita o professor Flávio Schenkel, do Canadá, como um dos parceiros do projeto. Segundo o pesquisador da UENP, Schenkel foi um dos pioneiros na implantação da seleção genômica e tem participado ativamente das pesquisas, análises de dados, cursos e atividades com alunos e produtores.
Outra parceria destacada é com Daniela Lourenço, da Universidade da Geórgia, pesquisadora paranaense que atua nos Estados Unidos e está ligada ao desenvolvimento de ferramentas utilizadas na avaliação genômica.
Para Galindo, a ampliação das parcerias mostra que o Purunã deixou de ser uma iniciativa restrita a uma única instituição.
“O projeto Purunã tem crescido porque não é um projeto de uma pessoa só, não é um projeto de uma instituição só, é um projeto de pessoas que acreditam na ciência e que querem dar um retorno pra sociedade.”
A pesquisa também está avançando para além da reprodução e da seleção genética. Galindo informou que um novo projeto relacionado ao Purunã foi aprovado para utilizar tecnologias como transcriptômica, metagenômica, metatranscriptômica, metabolômica e epigenômica no estudo da resistência ao carrapato.
A pesquisa será liderada pelo professor Marcelo Vicari, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com participação de pesquisadores de outras instituições.
A busca por animais mais resistentes pode representar um avanço importante para a pecuária, principalmente porque características de adaptação e resistência podem ajudar a reduzir desafios enfrentados pelos produtores.

Para Cecília Borghetti Pilati, representante da Associação dos Criadores de Purunã (ACP), o projeto representa uma oportunidade de acelerar a evolução genética do rebanho. Segundo ela, a raça já apresenta boas características, mas a utilização de novas tecnologias poderá elevar ainda mais a qualidade dos animais.
“A importância é que vai acelerar muito a nossa produção, a qualidade da genética do nosso gado em geral.”
Cecília também defende a continuidade dos investimentos em tecnologia e no desenvolvimento da pecuária brasileira.

O impacto esperado do projeto pode ser resumido em três frentes: mais velocidade no melhoramento genético, maior oferta de animais superiores e expansão da raça Purunã.
A produção de embriões permite utilizar de maneira mais intensa as matrizes geneticamente superiores. A genômica ajuda a identificar quais animais devem ser priorizados. E a estrutura dos novos laboratórios cria capacidade tecnológica para que esse processo continue avançando no Paraná.
Para o pecuarista, o resultado esperado é ter acesso, ao longo do tempo, a touros e matrizes com informações genéticas cada vez mais precisas. Galindo explica que, com a evolução da avaliação genômica, o produtor poderá consultar informações mais robustas sobre o valor genético dos animais antes de tomar decisões de compra, reprodução e formação do rebanho.
O projeto, portanto, não trata apenas de produzir mais animais. A proposta é produzir mais genética superior em menos tempo.
É essa combinação entre genômica, reprodução in vitro, pesquisa científica e transferência de tecnologia que pode marcar uma nova fase do Purunã: uma raça criada no Paraná que busca ganhar escala, qualidade genética e espaço na pecuária brasileira.