
A participação feminina na gestão das propriedades rurais ganhou espaço durante a Agroleite 2026, realizada de 3 a 7 de agosto, no Parque Tecnológico Agroleite, em Castro (PR). A Comissão Estadual de Mulheres da FAEP e o Sindicato Rural de Castro promoveram um encontro voltado à integração de produtoras e ao acesso a informações estratégicas sobre gestão, regularização ambiental e segurança jurídica, com o objetivo de preparar as famílias do campo para enfrentar desafios econômicos, climáticos e produtivos.
Mais do que incentivar a participação das mulheres nos sindicatos rurais, a iniciativa mostrou que a gestão compartilhada pode ser uma ferramenta importante para fortalecer os negócios rurais. Entre os assuntos abordados estiveram o planejamento ambiental, a documentação necessária para o funcionamento regular das propriedades e os caminhos jurídicos para a renegociação de dívidas.
Para Kelli Cristine Rodrigues Cardoso, coordenadora técnica da Comissão de Mulheres da FAEP, um dos principais objetivos do encontro foi aproximar novas produtoras da entidade e mostrar como a participação feminina pode contribuir para o fortalecimento do sistema sindical.
"Hoje o que esperamos é que mais produtoras rurais aqui da região possam conhecer o trabalho da Comissão Estadual de Mulheres da FAEP e elas possam também participar", explicou Kelli.
Segundo a coordenadora, a presença das mulheres dentro dos sindicatos rurais ajuda a ampliar a participação nas decisões e fortalece a representação do setor agropecuário.
"O objetivo é fortalecer as nossas entidades, que são os sindicatos rurais, e que elas, com a participação ativa dentro dos sindicatos, consigam fortalecer ainda mais o agronegócio paranaense", destacou.
A orientação, portanto, não se limita à participação em reuniões ou eventos. A proposta é que as produtoras conheçam os serviços oferecidos pelos sindicatos e utilizem essas estruturas como apoio para a gestão das propriedades.

A Comissão de Mulheres do Sindicato Rural de Castro também buscou ampliar a participação de produtoras que ainda não estavam envolvidas nas atividades da entidade. Para Kelly Taborda, integrante da Comissão de Mulheres do Sindicato Rural de Castro, o encontro foi uma oportunidade para apresentar às participantes ferramentas que podem ser aplicadas diretamente na rotina das propriedades.
"Nosso foco realmente foi convidar mulheres que ainda não fazem parte da nossa comissão para elas conheçam a importância de participar, fazer parte do sindicato e mostrar para elas como que trabalhamos com os nossos planejamentos estratégicos", explicou.
A escolha dos temas também levou em consideração a realidade da região, fortemente ligada à produção leiteira. Segundo Kelly, assuntos relacionados à gestão ambiental ganharam importância diante das exigências que envolvem a atividade rural.
"É de grande importância essa questão de gestão ambiental. E é uma coisa que ali a esposa pode estar junto com o marido, trabalhando e se unindo para realmente ter uma gestão bem adequada", ressaltou.
O encontro reuniu cerca de 30 mulheres convidadas. A participação, porém, não ficou restrita às produtoras. De acordo com Kelly, os esposos também poderam participar das atividades, justamente porque muitos dos temas tratados envolvem decisões que precisam ser tomadas em conjunto dentro da propriedade.
A ideia reforça uma mudança no perfil da gestão rural: cada vez mais, decisões relacionadas às finanças, produção, meio ambiente e planejamento são compartilhadas entre os integrantes da família.

Um dos pontos discutidos durante o encontro foi a gestão ambiental. Para Ângela Serenato, consultora ambiental, organizar a documentação da propriedade com antecedência pode facilitar processos que muitas vezes são considerados burocráticos pelos produtores.
"Hoje eu busco trazer a facilidade da implantação de um sistema ambiental na propriedade para auxiliar na questão do licenciamento ambiental, trazendo tanto como planejamento, a partir do planejamento ambiental, até o sistema de documentação do licenciamento, que é burocrático e, às vezes, muito moroso", explicou.
A proposta é transformar a regularização ambiental em parte do planejamento da propriedade, e não em uma providência tomada somente quando surge uma exigência ou necessidade de licenciamento.
Segundo Ângela, uma gestão ambiental organizada permite ao produtor acompanhar a documentação e identificar antecipadamente o que precisa ser atualizado.
"Com esse processo de gestão ambiental implantado na propriedade, nós conseguimos auxiliar nesse processo de documentação", afirmou.
Na prática, a orientação é que o produtor não espere uma fiscalização, uma renovação ou uma situação de emergência para descobrir que determinado documento está vencido ou precisa ser corrigido.
Outro tema de grande impacto para o produtor rural foi a renegociação de dívidas. Em um cenário marcado por dificuldades climáticas e oscilações econômicas, o planejamento financeiro e o conhecimento dos direitos do produtor passam a ser ferramentas importantes para preservar o patrimônio rural.
Cristian Santos Oliveira, advogado, levou ao encontro uma abordagem voltada à segurança jurídica e às alternativas para que o produtor consiga reorganizar seus compromissos financeiros sem comprometer a continuidade da atividade.
"Primeiramente é um prazer estar na FAEP falando de um assunto tão importante, que é a renegociação das dívidas. A gente vê que o cenário brasileiro e mundial passa por uma dificuldade climática também em commodities", afirmou.
Para o advogado, a renegociação deve ser analisada de forma estratégica. A preocupação é evitar que uma dificuldade financeira momentânea provoque a perda de patrimônio essencial para a continuidade da produção.
"A gente traz essa inteligência jurídica de como o produtor rural pode sair desse momento sem precisar vender terra, vender seu maquinário para pagar as dívidas", explicou.
Na avaliação do advogado, o produtor precisa conhecer o contrato que está assinando e verificar cuidadosamente as condições propostas. "As minhas dicas são ler bem o contrato que você está renegociando, saber os direitos e não pagar mais juros do que já está no contrato", orientou.
A recomendação ganha ainda mais peso quando envolve patrimônio produtivo. Para Cristian, a terra deve ser preservada como instrumento de produção e não tratada simplesmente como moeda para solucionar uma dívida.
"Terra não é moeda de troca para pagar dívidas. Dívida rural se paga com produção", concluiu.
A reunião realizada durante a Agroleite 2026 mostrou que o protagonismo feminino no campo está diretamente relacionado à profissionalização da gestão das propriedades. Ao aproximar produtoras dos sindicatos rurais e oferecer informações sobre planejamento, meio ambiente e segurança jurídica, a Comissão Estadual de Mulheres da FAEP amplia o acesso das famílias rurais a ferramentas que podem contribuir para decisões mais seguras.