
A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa distante e já está pronta para transformar a rotina das propriedades rurais brasileiras. Essa foi a principal mensagem do geofísico, divulgador científico e influenciador Sérgio Sacani durante o Painel do Agro promovido pelo Grupo Calpar, nesta quarta-feira (5), no Parque Tecnológico Agroleite, em Castro (PR).
Diante de um público formado por produtores rurais, técnicos e profissionais do agronegócio, Sacani mostrou que a IA pode ser aplicada imediatamente na agricultura e na pecuária utilizando ferramentas que muitos produtores já possuem, como celulares, drones, sensores e sistemas de monitoramento.
Logo no início da palestra, ele procurou derrubar um dos maiores obstáculos para a adoção da tecnologia: o medo.
"Quero desmistificar a inteligência artificial. Ela não é nenhum monstro. Quero quebrar a resistência que algumas pessoas ainda têm em aplicar essa tecnologia no agronegócio. Aplique, porque ela vai ser muito boa para o seu negócio."
Segundo Sacani, apesar da popularização da IA ter acontecido com o lançamento do ChatGPT em 2022, seus fundamentos existem há mais de sete décadas.
"Muita gente acha que a inteligência artificial surgiu em 2022. Não surgiu. Eu utilizo inteligência artificial desde 2007, quando terminei meu doutorado. Na minha tese já havia um capítulo inteiro dedicado ao tema."

Mesmo atuando profissionalmente na indústria do petróleo, Sacani explicou que os princípios tecnológicos utilizados em plataformas offshore são praticamente os mesmos que podem revolucionar o agronegócio.
Ele contou que trabalha em um campo do pré-sal cuja produção é altamente automatizada graças à Inteligência Artificial e à robótica.
"A tecnologia é uma só. O que muda é onde ela é aplicada."
Segundo ele, o agro brasileiro já passou por diversas revoluções tecnológicas, como mecanização, genética, biotecnologia e agricultura de precisão. Agora, vive um novo momento, impulsionado pela inteligência artificial.

Um dos pontos centrais da apresentação foi a importância dos dados produzidos diariamente dentro das propriedades rurais.
Sacani explicou que máquinas agrícolas, drones, sensores climáticos e equipamentos conectados coletam uma quantidade gigantesca de informações que muitas vezes acabam sendo desperdiçadas.
"Pode existir um dado escondido dentro da sua propriedade capaz de aumentar em 10% a sua produtividade. Isso representa milhões de reais no fim do ano."
Segundo ele, a Inteligência Artificial consegue identificar padrões que seriam praticamente impossíveis de serem percebidos por uma pessoa. "O computador consegue relacionar centenas de variáveis ao mesmo tempo e encontrar respostas que nós simplesmente não conseguimos enxergar."
Durante a palestra, Sacani fez questão de mostrar aplicações simples que podem ser implementadas imediatamente.
Entre os exemplos apresentados está o uso de drones com sensores infravermelhos para localizar rapidamente animais mortos dentro de grandes propriedades.
Ele contou o caso de um produtor que demorava dias para encontrar um boi morto em meio ao rebanho, aumentando o risco de disseminação de doenças.
Com a adaptação do drone, bastou utilizar a câmera térmica para identificar rapidamente os animais.
"O boi vivo aparece quente. O boi morto aparece frio. Em poucas horas ele consegue localizar o animal e evitar prejuízos."
Outro exemplo citado envolve o uso de Inteligência Artificial para identificar doenças nas plantas, reconhecer pragas automaticamente, monitorar o estresse hídrico das lavouras, prever produtividade, reduzir desperdícios de defensivos e até controlar automaticamente sistemas de irrigação.
Sacani destacou que a democratização da tecnologia é um dos fatores mais importantes da atualidade.
Para ele, nunca foi tão fácil utilizar Inteligência Artificial.
"O celular virou a principal porta de entrada para a inteligência artificial."
Ele lembrou que hoje qualquer produtor pode utilizar ferramentas como ChatGPT para traduzir manuais técnicos, elaborar contratos, organizar documentos, gerar relatórios, consultar informações e resolver problemas do dia a dia. "Você sai daqui hoje e já consegue começar a aplicar muita coisa na sua propriedade."

Apesar do entusiasmo com a tecnologia, Sacani fez um alerta importante. Segundo ele, a IA não deve ser utilizada apenas porque está na moda.
"O produtor precisa primeiro identificar qual é o problema da propriedade. Depois procurar a tecnologia que resolve aquele problema."
Ele também destacou a importância da qualidade dos dados.
"Entrou lixo, saiu lixo. Nenhum sistema de Inteligência Artificial faz milagre se os dados forem ruins."
Outro ponto reforçado pelo palestrante é que a Inteligência Artificial não substitui pessoas. "A IA trabalha junto com o ser humano. Ela potencializa a capacidade das pessoas de tomar decisões."
Após a palestra, o diretor do Grupo Calpar avaliou positivamente o evento e afirmou que o principal objetivo foi mostrar que a Inteligência Artificial está ao alcance de qualquer produtor rural.
Segundo ele, a tecnologia pode ser incorporada tanto em pequenas quanto em grandes propriedades.
"O objetivo era mostrar que a inteligência artificial é uma ferramenta simples. Não é um monstro. Ela pode ser utilizada na produção de leite, na agricultura, na suinocultura e em praticamente qualquer atividade rural."
Na avaliação do diretor, a transformação digital também fortalece a sucessão familiar no campo. "As novas gerações têm mais facilidade com tecnologia e podem ajudar suas famílias a implementar essas ferramentas, profissionalizando cada vez mais a gestão da propriedade."
Ele acredita que esse processo contribui diretamente para manter o legado das famílias rurais. "A inteligência artificial pode ser uma das grandes aliadas para garantir a continuidade das propriedades e aumentar os resultados no campo."
Ao final, o diretor também elogiou a didática de Sérgio Sacani."Ele conseguiu mostrar um assunto complexo de forma simples, acessível e muito prática. Era exatamente esse o objetivo da palestra."