
A criação da Área de Relevante Interesse Ecológico - ARIE dos Muriquis, na região da Barrinha, em Castro, nos Campos Gerais do Paraná, foi tema do Café do Produtor do Sindicato Rural de Castro, realizado na quarta-feira, 26 de outubro de 2026. O encontro reuniu produtores rurais e representantes do poder público para esclarecer os objetivos do projeto coordenado pelo Instituto Água e Terra (IAT), que busca proteger o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides), também conhecido como mono-carvoeiro, primata criticamente ameaçado de extinção, conciliando a conservação da Mata Atlântica com a manutenção das atividades agropecuárias já desenvolvidas na região.
Durante o encontro, o engenheiro florestal do IAT, Eduardo Abilhoa Mattar, apresentou informações sobre a proposta de criação das unidades de conservação e os possíveis impactos para os proprietários rurais. Segundo ele, o diálogo com o setor produtivo é fundamental para esclarecer dúvidas, evitar interpretações equivocadas e construir parcerias que permitam o avanço do projeto.
Uma das principais preocupações dos produtores rurais diz respeito às possíveis restrições de uso das propriedades localizadas nas áreas abrangidas pelo projeto. Sobre esse ponto, Eduardo Abilhoa Mattar explicou que a proposta prevê a manutenção das atividades produtivas nas áreas consolidadas, além da permanência das terras sob propriedade particular.
"Então, a gente está prevendo a manutenção nas atividades produtivas nas áreas consolidadas, está prevendo a manutenção das terras privadas. Então, não tem previsão de desapropriação", esclareceu o engenheiro florestal.
O representante do IAT destacou que o objetivo das reuniões com os produtores é apresentar o que será permitido e quais atividades poderão sofrer restrições, proporcionando maior segurança aos proprietários envolvidos.
Entre as atividades mencionadas por Mattar como vedadas nas áreas abrangidas estão a mineração e a produção comercial de energia hidrelétrica. As demais atividades rurais já desenvolvidas poderão ter continuidade, desde que respeitem a legislação ambiental e os critérios estabelecidos para a unidade de conservação.
O engenheiro também orientou os produtores a procurar diretamente o Instituto Água e Terra sempre que houver dúvidas sobre o projeto.
"A principal dica é que os proprietários preocupados e interessados nesse tema procurem o IAT, procurem a gente para tirar informações, para evitar até a propagação de informações equivocadas", recomendou.
A proposta de conservação envolve duas unidades de conservação com áreas que abrangem o município de Castro. Uma delas está localizada integralmente no município, na região do Abapã. A outra tem a maior parte de sua área em Cerro Azul, mas também alcança o território de Castro, no distrito do Socavão.
De acordo com Mattar, nessa segunda área estão incluídas localidades como Água Morna, Pinhal Grande e Pinhalinho, nas proximidades do Imbuial.
A definição das áreas é parte do trabalho de proteção dos ambientes naturais utilizados pelo muriqui-do-sul. A preservação desses espaços é considerada importante para garantir condições de sobrevivência à espécie, que depende da conservação da vegetação nativa da Mata Atlântica.

Outro ponto apresentado durante o Café do Produtor foi o comportamento do mono-carvoeiro e sua relação com as atividades agropecuárias. O engenheiro florestal explicou que o muriqui-do-sul é um animal arborícola, ou seja, vive principalmente nas árvores e raramente desce ao solo.
"É o maior primata das Américas, um animal arborícola que muito raramente desce das árvores. Mesmo para tomar água, ele utiliza a água que acumula nas epífitas, nas bromélias que estão nas árvores", explicou Mattar.
A alimentação do animal também foi destacada como um aspecto importante para tranquilizar os produtores rurais. Segundo o representante do IAT, a dieta é composta principalmente por folhas, frutos e flores, sem representar ameaça às lavouras ou aos plantios florestais.
"Ele se alimenta de folhas, frutos e flores. Então, não causa prejuízo nenhum a nenhum tipo de cultivo, nem florestal e nem agrícola", afirmou.
O esclarecimento busca ampliar o conhecimento sobre a espécie e demonstrar que a presença do muriqui-do-sul não representa um problema para a produção rural.
Além da importância ambiental, o projeto de criação da ARIE dos Muriquis poderá representar uma oportunidade para o desenvolvimento de novas atividades econômicas na região, especialmente relacionadas ao turismo de natureza.
Para Eduardo Abilhoa Mattar, a conservação da espécie pode agregar valor ao território e criar possibilidades de aproveitamento turístico no futuro. A aproximação com os produtores rurais, nesse contexto, é considerada essencial para fortalecer a iniciativa.
"Eu entendo que o projeto tem uma importância ambiental e pode futuramente trazer uma importância turística para a região. Então, sempre que a gente vem aqui no sindicato, aceita os convites e vem apresentar nossas informações, é no sentido de formar parcerias e fortalecer o projeto, respeitar o setor produtivo e tentar agregar o máximo possível de melhorias para que ele ande da melhor forma", destacou.
A participação dos produtores rurais nas discussões é apontada como um caminho para aproximar os objetivos da conservação ambiental da realidade de quem vive e trabalha no campo.
A proposta da ARIE dos Muriquis coloca em pauta um desafio importante para Castro e região: proteger uma espécie ameaçada de extinção e, ao mesmo tempo, construir alternativas que valorizem o patrimônio natural sem desconsiderar a atividade agropecuária