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Sistema produtivo mostrado em novela já é realidade no norte de Mato Grosso

Desde 2011 a Embrapa Agrossilvipastoril realiza um processo de capacitação continuada de técnicos e extensionistas rurais que já contou com cerca de 100 alunos nos dez módulos realizados. Uma vitrine tecnológica com SAF complementa a aprendizagem.

Por: Redação
15/08/2022 às 18h26
Sistema produtivo mostrado em novela já é realidade no norte de Mato Grosso
Crédito: Gabriel Faria/Embrapa

Em episódios da novela Pantanal, exibida pela Rede Globo, o personagem Jove, interpretado por Jesuíta Barbosa, tem defendido a utilização de sistemas agroflorestais (SAFs) nas fazendas do pai, José Leôncio (Marcos Palmeira). Este sistema produtivo já é realidade em várias regiões do país, inclusive no norte de Mato Grosso. A Embrapa é uma das instituições que vem contribuindo para aumento da adoção dessa estratégia produtiva, sobretudo na agricultura familiar.

Desde 2011 a Embrapa Agrossilvipastoril realiza um processo de capacitação continuada de técnicos e extensionistas rurais que já contou com cerca de 100 alunos nos dez módulos realizados. Uma vitrine tecnológica com SAF complementa a aprendizagem.

Ao lado de instituições como o Instituto Centro de Vida (ICV)Instituto Ouro Verde (IOV)ONF BrasilUnematUFMTSema-MT, Seaf-MTIbamaCeplac, entre outros, a Embrapa vem contribuindo para maior interesse e maior adoção dos SAFs na região. Conforme estimativa feita na avaliação de impacto da tecnologia elaborada pela Embrapa Agrossilvipastoril, de 2016 até 2019 a área com SAF na região norte de Mato Grosso aumentou em cerca de 1.000 hectares, passando de 706 hectares, segundo o Censo Agropecuário, para 1700 ha. Uma grande parte dessa expansão se deu com SAFs biodiversos, conduzidos em transição agroecológica ou de forma orgânica, e cultivados fora de áreas de preservação permanentes degradadas. Outra estratégia muito adotada é o sistema silvipastoril biodiverso, com foco em pecuária, também conhecidos como “pasto muvuca”. Esse conjunto de tecnologias vem sendo trabalhado pelo Instituto Ouro Verde com diversas famílias de Alta Floresta e região.

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O engenheiro florestal e analista da Embrapa Agrossilvipastoril, Diego Antonio, destaca que o processo de transferência de tecnologia em sistemas agroflorestais tem entre seus pilares o intercâmbio de conhecimento entre produtores, comunidades tradicionais, povos indígenas, técnicos e gestores públicos. O resultado do trabalho feito se reflete em aumento do interesse e das demandas referentes ao uso de SAFs.

“Cada vez mais temos políticas públicas federais, como Fundo Amazônia, e estaduais, como o Programa PCI (Produzir, conservar e incluir), nas quais os SAFs ocupam espaço de destaque. Temos sido chamados a contribuir com elaboração de editais, como o REM Mato Grosso, e com a avaliação de projetos. Isso mostra que a influência vai além do desenvolvimento tecnológico em si, mas também da chancela da eficiência da tecnologia como forma de geração de renda aliada a preservação ambiental”, analisa Diego Antonio.

 

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Projeto Gaia

Em 2020 outra iniciativa de impacto para adoção de SAF foi iniciada na região. A Rede de Cooperação e Sustentabilidade Gaia foi criada pela UFMT e Unemat e também conta com a parceria da Embrapa. O grupo formado por professores, pesquisadores e alunos de graduação e pós-graduação vem trabalhando com agricultores na zona rural e periurbana de Sinop, difundindo tecnologias e prestando assistência técnica em SAFs e agroecologia.

Unidades de Aprendizgem foram implantadas em áreas de agricultores do Assentamento 12 de Outubro, no município de Cláudia. Nos locais são realizadas atividades práticas coletivas, capacitações, mutirões e visitas técnicas. Em cada uma dessas Unidades foram plantadas espécies olerícolas, como folhosas, raízes, tubérculos e plantas medicinais, além de espécies arbóreas frutíferas e outras que exercem serviços ecossistêmicos. As espécies variam conforme interesse do produtor. Em comum, a grande diversidade e o escalonamento, de forma a obter renda ao longo do tempo.

Uma outra unidade de aprendizagem vem sendo conduzida dentro do campus da UFMT em Sinop e é usada como sala de aula a céu aberto. O grupo ainda busca organizar uma cadeia de comercialização e distribuição de produtos produzidos pelos agricultores assistidos.

Em Alta Floresta, iniciativas do ICV e IOV levam assistência técnica e microcrédito aos produtores. Um sistema de economia solidária ajuda na comercialização e transporte dos produtos produzidos nos SAFs.

As duas iniciativas foram aprovadas em edital do Funbio e contam com recursos dos governos da Alemanha e do Reino Unido, por meio do REM Mato Grosso.

O Programa Global REDD Early Movers (REM) (REDD para Pioneiros pela sigla em Inglês) é uma iniciativa de remuneração de serviços ambientais. Premia nações ou estados comprometidos com a redução de emissões de CO2 por meio de ações de conservação de florestas. Mato Grosso passou a ser beneficiado pelo programa em 2017 devido à redução de mais de 90% do desmatamento no período de 2004 a 2014.

 

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SAF

Os sistemas agroflorestais são formas de produção sustentável em que o cultivo de espécies agrícolas e arbóreas é feito de modo consorciado, visando imitar a sinergia que ocorre na natureza. Por se tratar de uma estratégia de uso do solo com cultivos perenes, os SAFs contribuem com o sequestro de carbono, melhorias dos atributos do solo, retenção e infiltração de água e redução de perdas de solo.

Os SAFs podem ser com uso de poucas espécies arbóreas, como no caso dos sistemas silvipastoris (SSP) ou agrossilvipastoris, ou biodiversos, que são aqueles com utilização de uma grande quantidade de espécies. Este último é o sistema que vem sendo mais explorado pelos agricultores familiares do norte de Mato Grosso. São inúmeros arranjos e finalidades que SAFs podem apresentar para diferentes sistemas de produção. Produção de frutas e/ou olerícolas em pomares e hortas agroflorestais, sistemas de produção com o componente animal (SSP), produção de madeira para biomassa, construção civil ou rural. Produção de extrativos como látex e óleos, sementes, mel etc.

A maior variedade de espécies permite ao produtor diversificar as fontes de renda e escalonar a produção e a mão de obra ao longo do ano. Nos SAFs da região são utilizadas espécies frutíferas como a banana, pequi, caju, goiaba, acerola, goiaba, cupuaçu, cacau, café, baru e castanheira; espécies florestais, exóticas ou nativas, como mogno africano, teca, eucalipto, ipê, jatobá, jequitibá, copaíba e cumaru; e espécies de serviços, como margaridão, gliricídia, bordão de velho, ingá, mutambo, embaúba e amarelinho, entre outras.

De acordo com Diego Antonio, o desafio da agricultura moderna é a busca constante pela melhoria dos atributos do solo, especialmente os atributos biológicos.

“Manter o solo coberto o ano todo oferece condições para a vida do solo se manifestar e trazer equilíbrio para o sistema produtivo. A matéria orgânica bem manejada alimenta a microbiologia do solo, que disponibiliza nutrientes, atua no controle de doenças de solo, retém umidade e evita perdas de solo por erosão. O desafio é o aporte constante de matéria orgânica para a expansão da vida do solo, manifestando a saúde desse solo”, explica.

O uso de árvores dentro dos sistemas de produção é uma estratégia pois, além dos benefícios da matéria orgânica gerada por elas, as árvores desempenham um papel fundamental na reciclagem de nutrientes e na diminuição da perda de água devido à atenuação dos ventos através do efeito “quebra-vento”.

Além do aumento da biodiversidade e ampliação dos corredores de biodiversidade, estes sistemas de produção também podem ser utilizados para a recomposição de áreas de Reserva Legal e recuperação de áreas de proteção permanente degradadas (APPDs). Neste último caso os SAFs podem ser explorados apenas por propriedades de até quatro módulos fiscais.

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