
O tropeirismo voltou a ocupar o lugar de destaque que sempre teve na história de Piraí do Sul durante o 7º Encontro Tropeiro, realizado no sábado, 5 de julho de 2025. Promovido pelo Grupo Tropeiros Nativos de Piraí do Sul, com apoio da Prefeitura Municipal, o evento reuniu inúmeros cavaleiros, diversas comitivas vindas de mais de dez cidades e centenas de visitantes em uma programação marcada pela preservação da cultura, da religiosidade e das raízes que deram origem ao município.
A programação começou logo cedo na Antiga Estação Ferroviária, onde foi servido o tradicional café tropeiro. O cardápio resgatou sabores que acompanham gerações, como o virado de feijão, a paçoca de carne socada no pilão, a paçoca de amendoim e outras receitas típicas que remetem às antigas tropas que cruzavam os Campos Gerais.
Na sequência, cavaleiros, amazonas e comitivas seguiram em cavalgada até o Santuário de Nossa Senhora das Brotas, um dos principais pontos turísticos e religiosos da região, integrante da Rota do Rosário do Paraná. O encerramento no santuário reforçou o caráter de fé e gratidão do encontro, celebrado também em homenagem ao Dia Municipal do Tropeiro.
O evento representou um reencontro entre passado e presente, lembrando que Piraí do Sul nasceu justamente no caminho percorrido pelos tropeiros que transportavam mercadorias entre o Rio Grande do Sul e São Paulo. Essa ligação histórica continua sendo motivo de orgulho para a população e inspira novas gerações a manter viva uma tradição que moldou a identidade da cidade.
Coordenador do Grupo Tropeiros Nativos de Piraí do Sul, João Carlos da Silva Filho, conhecido como Joãozinho Tropeiro, destacou que o principal objetivo do encontro é preservar a memória de quem ajudou a construir o município.
Segundo ele, manter viva essa história é uma responsabilidade coletiva.
"É muito importante para a gente relembrar da nossa história, das nossas raízes, porque nossa cidade foi fundada graças aos tropeiros que passavam por aqui, vindo do Rio Grande do Sul em direção ao Estado de São Paulo. Piraí do Sul nasceu nesse caminho. Um povo sem história é um povo sem futuro. Quando lembramos das nossas raízes, construímos um futuro ainda melhor."
Joãozinho explica que cada detalhe do encontro foi pensado para aproximar principalmente as crianças e os jovens da cultura tropeira.
O café servido antes da cavalgada, por exemplo, reproduz a alimentação dos antigos viajantes que percorriam milhares de quilômetros conduzindo tropas de muares e mercadorias.
Além da gastronomia, outro grande atrativo é a presença do carro de boi. Segundo ele, o desfile desperta curiosidade justamente por mostrar um dos meios de transporte mais importantes do Brasil antes da expansão das ferrovias e das rodovias.
"Temos o virado de feijão, a paçoca de carne socada no pilão, a paçoca de amendoim e tantas outras comidas tradicionais. Também temos o carro de boi, que antigamente transportava mudanças e mercadorias. Hoje recebemos mais de dez cidades participando da cavalgada e encerramos tudo no Santuário de Nossa Senhora das Brotas, um lugar abençoado que faz parte da Rota do Rosário. É muito gratificante ver essa tradição sendo resgatada."
Para o coordenador, o sucesso da edição demonstra que o tropeirismo continua despertando orgulho entre as famílias dos Campos Gerais.
O fortalecimento dessa tradição também recebe apoio do poder público. O prefeito de Piraí do Sul, Henrique Carneiro, afirmou que preservar o tropeirismo significa valorizar a própria origem do município.
Segundo ele, incentivar eventos como esse faz parte da missão da administração municipal. "Nós temos aqui um evento importantíssimo para resgatar as nossas origens. A história de Piraí do Sul nasce do tropeirismo. Como chefe do Poder Executivo, temos a missão de conhecer essa história, valorizá-la e ajudar a fomentar essa tradição que faz parte da identidade do nosso município."
O prefeito destaca que preservar o patrimônio cultural também fortalece o turismo, movimenta a economia local e aproxima as novas gerações da história regional.
A chegada das comitivas vindas de diferentes municípios reforça esse potencial, transformando o encontro em um importante evento de integração entre cidades que compartilham a cultura tropeira.

Entre os momentos que mais chamaram a atenção do público esteve o desfile do tradicional carro de boi.
Os animais despertam curiosidade tanto pelo porte quanto pelos grandes chifres, mas por trás da apresentação existe um trabalho paciente que exige dedicação diária.
O carreiro José Maia da Silva explica que o segredo está na convivência constante com os animais. Segundo ele, a confiança é construída aos poucos. "É pegando, ensinando e agradando eles. Quanto mais a gente trabalha com os animais, melhores eles ficam."
José Maia utiliza animais da raça Guzerá. Embora reconheça que outras raças possam apresentar temperamento mais dócil, ele afirma que o Guzerá também responde muito bem ao treinamento.
"Esses são Guzerá. Outras raças, como o Caracu, costumam ser mais mansas. O Guzerá é mais ligeiro, mas também fica dócil com o trabalho. E esses chifres grandes fazem parte do charme deles."
O carro de boi representa uma das imagens mais marcantes do tropeirismo brasileiro e lembra um período em que praticamente todo o transporte de mudanças e mercadorias dependia da força animal.

Além da preservação cultural, o evento também evidencia o papel social desempenhado pelo tropeirismo. Integrante do grupo Cowboys On The Mission, Sandro Costa acredita que o contato com os cavalos oferece aos jovens muito mais do que lazer.
Segundo ele, cuidar dos animais desenvolve responsabilidade, disciplina e fortalece os vínculos familiares."É muito importante participar para que essa tradição não morra e seja passada de geração em geração. O cavalo proporciona uma vida saudável. Ele precisa de cuidado, dedicação e zelo. Quando o jovem está envolvido com isso, ele ocupa seu tempo com algo positivo e acaba ficando mais distante de caminhos que não fazem bem."
Para Sandro, o tropeirismo também aproxima pais, filhos e amigos, criando momentos de convivência que se tornam cada vez mais raros diante do excesso de tempo dedicado às telas.
Essa convivência fortalece valores como respeito, solidariedade e compromisso, características presentes desde os tempos das antigas tropas.

Muito antes da cavalgada começar, outra ação já mobilizava integrantes dos Cowboys On The Mission. Na sexta-feira à noite, o grupo chegou a Piraí do Sul para desenvolver atividades missionárias. No sábado, antes do evento principal, foram realizadas visitas a pessoas enfermas e famílias que enfrentam dificuldades.
A integrante Dourete Maria Reis Costa explica que o objetivo vai muito além da participação na cavalgada.Segundo ela, o grupo procura fortalecer os relacionamentos humanos e levar uma palavra de esperança.
"Chegamos na sexta-feira à noite. No sábado tivemos um trabalho na igreja e depois passamos a tarde visitando pessoas enfermas, com problemas físicos e também mentais. Esse projeto é baseado no relacionamento com as pessoas, algo muito importante hoje, porque o contato humano está sendo enfraquecido pelo mundo virtual."
Ela afirma que as visitas proporcionaram momentos de emoção tanto para quem recebeu quanto para quem participou da missão. "As pessoas precisam desse relacionamento físico, desse contato. Foi um trabalho muito especial e muito gratificante."
A atuação do grupo demonstra que o tropeirismo também pode ser um instrumento de solidariedade, acolhimento e evangelização, unindo tradição, cultura e fé.
Ao longo dos anos, o Encontro Tropeiro de Piraí do Sul deixou de ser apenas uma comemoração do calendário municipal para se consolidar como um dos principais eventos culturais da região dos Campos Gerais.
O crescimento do número de participantes confirma que existe um interesse cada vez maior em preservar a memória daqueles que ajudaram a desbravar o Sul do Brasil.
A cavalgada até o Santuário de Nossa Senhora das Brotas simboliza exatamente essa caminhada entre passado e presente. Enquanto os cascos dos cavalos percorrem caminhos históricos, homens, mulheres, crianças e idosos renovam o compromisso de manter viva uma herança construída com trabalho, coragem e fé.
O 7º Encontro Tropeiro mostrou que o tropeirismo continua fazendo parte da vida de milhares de pessoas. Seja por meio da cultura, da gastronomia, do carro de boi, da religiosidade ou da formação das novas gerações, a tradição segue encontrando espaço para permanecer viva.
Em Piraí do Sul, o legado dos tropeiros não está apenas nos livros de história. Ele continua sendo escrito a cada cavalgada, em cada comitiva que chega ao município e em cada criança que aprende que conhecer as próprias raízes é o primeiro passo para construir o futuro.