
Levantamento feito em março pela Embrapa Pecuária Sudeste (São Carlos-SP) constatou que ao menos 15 laboratórios já estão utilizando o material de referência de ração para peixes em suas análises. Esse é o primeiro passo para que a indústria do pescado possa se beneficiar dos materiais para controle de qualidade em seus laboratórios, tanto na calibração de instrumentos quanto para diagnosticar problemas com os métodos utilizados.
Os materiais de referência foram desenvolvidos pela Embrapa a partir de amostra de ração comercial que é direcionada à alimentação de peixes produzidos em cativeiro. Eles contêm quantidades conhecidas de nutrientes e ajudam os laboratórios a fornecerem dados confiáveis, como os valores de proteína, fibras e minerais.
De acordo com a pesquisadora Ana Rita Nogueira, a maioria dos laboratórios que respondeu à sondagem está localizada em indústrias de ração ou presta serviços para diversos segmentos, incluindo as fábricas de ração de peixe e usuários.
“Considerando que os laboratórios que realizam a avaliação da qualidade das rações têm um balizador, o tal ‘padrão ouro’ tão comentado nos últimos dias, para saber se os seus resultados estão corretos, os produtores têm à disposição rações com a qualidade comprovada por resultados confiáveis”, justificou.
Quatorze laboratórios, dos 15 que disseram estar usando os materiais, informaram que estão aplicando-o no controle interno da qualidade. Outro emprego bastante frequente é na validação de métodos. Segundo a pesquisadora da Embrapa, isso significa que é possível saber se uma alteração feita no método de análise é adequada e segue gerando resultados confiáveis.

HISTÓRICO DO TRABALHO
A pesquisa que resultou na criação do material de referência para ração de peixe também desenvolveu material de referência para laboratórios utilizarem na análise de tecido de peixe. O estudo foi tema da tese de doutorado em química analítica de Mayumi Silva Kawamoto, defendida na USP (Universidade de São Paulo). Ela foi orientada pela pesquisadora Ana Rita.
Tanto a ração quanto o tecido de peixe foram fornecidos por produtores comerciais, intermediada pela PeixeBR (Associação Brasileira de Piscicultura). O centro de pesquisa de São Carlos recebeu a doação de 150 quilos de tecido de tilápia, que foram processados e envasados em 600 frascos.
A irradiação do material – processo que aumenta o tempo de vida – foi feita no Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), em São Paulo. Após conferência do material, amostras foram distribuídas a alguns laboratórios aptos a realizar análises semelhantes.
Com a avaliação estatística dos resultados, foram elaboradas cartas-controle com os valores definidos, por exemplo, de cálcio, fósforo, magnésio, potássio, cobre, ferro, manganês, zinco, proteína total, gordura, fibras e suas incertezas associadas. As amostras produzidas e respectivas cartas-controle foram distribuídas para os Laboratórios Nacionais Agropecuários e outros laboratórios interessados, para emprego, dentre outros, como padrão interno de qualidade, treinamento e avaliação do método empregado.

Ana Rita disse que o trabalho não envolve a identificação de resíduos de medicamentos nos peixes – essa ação exigiria outro processo, que já vem sendo conduzido por outra Unidade da Embrapa.
Os resultados fazem parte do BRS Aqua, o maior projeto de pesquisa em aquicultura já desenvolvido no país. A iniciativa reúne mais de 20 Unidades da Embrapa e cerca de 270 empregados da empresa e conta com financiamento: do Fundo Tecnológico do BNDES/Funtec; do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), dinheiro que está sendo executado pelo CNPq; e da própria Embrapa.
Esse projeto tem forte caráter estruturante e de capacitação de recursos humanos especializados (bolsistas e estagiários). Tem ainda relevante componente técnico, como qualquer projeto de pesquisa, ao propor desenvolver resultados tecnológicos que deverão contribuir com avanços em diferentes áreas de conhecimento em aquicultura. O nome oficial do projeto BRS Aqua é “Ações estruturantes e inovação para o fortalecimento das cadeias produtivas da aquicultura no Brasil” .
Os objetivos do projeto são gerar e transferir tecnologias que promovam o desenvolvimento da aquicultura brasileira, com foco primordial na inovação, contribuindo para o incremento da produção e proporcionando aumento da competitividade e da sustentabilidade da cadeia nacional do pescado.
Além da formação de uma complexa rede de pesquisadores, o BRS Aqua é um marco em termos de investimentos, pessoas envolvidas e abrangência para a área de aquicultura. O principal agente financiador é o Fundo Tecnológico do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Funtec, BNDES) e o projeto conta também com recursos financeiros da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca (Seap) e da própria Embrapa. O gerenciamento desses recursos cabe, respectivamente, à Fundação Eliseu Alves (FEA), ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e ao Sistema Embrapa de Gestão (SEG).
Por sua complexidade, o projeto foi organizado em oito projetos componentes, sendo cinco eminentemente técnicos e três considerados transversais. Os projetos componentes técnicos são: reprodução e melhoramento genético; nutrição e alimentação; sanidade; tecnologia do pescado; e manejo produtivo e gestão ambiental. Já os projetos componentes transversais são: economia; transferência de tecnologia; e gestão.
Para potencializar os resultados, o BRS Aqua concentra suas ações de pesquisa e transferência de tecnologia em quatro espécies: tilápia (Oreochromis niloticus); tambaqui (Colossoma macropomum); camarão marinho (Litopennaeus vannamei); e bijupirá (Rachycentron canadum). Os desafios principais são refinar tecnologias para tilápia e camarão marinho, gerar pacote tecnológico para tambaqui e criar infraestrutura para ações efetivas de pesquisa com o bijupirá.
Dentre os impactos esperados, estima-se a elevação do patamar tecnológico dos sistemas de produção em aquicultura pela transferência e pela incorporação de novas tecnologias a fim de permitir a adoção de pacotes tecnológicos e a capacitação de profissionais, via bolsa de fomento tecnológico e extensão inovadora, para atuação em iniciativas públicas e privadas do setor.
A coordenação do projeto em rede cabe à Embrapa Pesca e Aquicultura e dele fazem parte mais de 240 empregados de 22 unidades da empresa, além de mais de 60 parceiros, entre públicos e privados.