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Suínos

POLÍTICA AGRO/CEPEA: PESTE SUÍNA AFRICANA EVIDENCIA DESAFIOS DA GESTÃO SANITÁRIA EM MEIO À GLOBALIZAÇÃO

Controlar a doença tem sido uma tarefa árdua, mas, por enquanto, a América é o único continente ainda sem registros da PSA.

23/01/2020 21h27
Por: Redação
Fonte: Redação
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De acordo com estimativas da Embrapa, os prejuízos de uma introdução de PSA no Brasil, cuja população de suínos é cerca de dois terços da norte-americana, seriam em torno de US$ 5,5 bilhões.
De acordo com estimativas da Embrapa, os prejuízos de uma introdução de PSA no Brasil, cuja população de suínos é cerca de dois terços da norte-americana, seriam em torno de US$ 5,5 bilhões.

 A Equipe de Política Agropecuária do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, passa a divulgar textos periódicos relacionados ao tema. Nesta primeira publicação, a equipe traz um panorama sobre a Peste Suína Africana (PSA) – enfermidade que vem atacando suínos especialmente na Ásia desde agosto de 2018 e que já resultou em abate de quase sete milhões de animais – e deixa evidente os desafios e as oportunidades que a globalização adiciona à gestão sanitária. 

 

Controlar a doença tem sido uma tarefa árdua, mas, por enquanto, a América é o único continente ainda sem registros da PSA. O Brasil é quarto maior exportador de carne suína do mundo. Uma eventual entrada da PSA no País poderia acarretar em prejuízos acima de cinco bilhões de dólares. Nesse sentido, pesquisadores do Cepea indicam que é de extrema importância que a cadeia nacional esteja atenta e preparada para prevenir a entrada do vírus no País.

 

Pesquisadores do Cepea indicam que trabalhar a cultura das notificações entre os produtores rurais brasileiros é desafiador, mas muito necessário. Além disso, seria preciso discutir um formato de composição e funcionamento de um fundo ou de um sistema de financiamento da vigilância. Imprescindível também seria a criação de um sistema de indenização, público-privado, para dar suportes técnico e financeiro para os produtores em possível situação de crise. 

 

Adicionalmente, é importante a modernização do sistema de vigilância ativa, incorporando cada vez mais o instrumento de análises de risco na tomada de decisão e as novas tecnologias disponíveis para monitoramento, integração de bases de dados, entre outras facilidades disponíveis, que permitem reduzir o custo dos serviços e aumentar a eficiência.

 

Segundo pesquisadores do Cepea, o Brasil tem muito a perder com as doenças que acometem rebanhos, perdas que vão além da produção e das transações comerciais, que causam impactos socioeconômicos importantes e que podem ter efeitos de longo prazo na imagem do País. Imagem esta que ainda precisa ser comunicada de forma mais fidedigna e confiável, informando os consumidores dos países importadores sobre a qualidade, inocuidade e confiabilidade dos produtos agroindustriais brasileiros, particularmente, em termos sanitários.

 

 

 PESTE SUÍNA AFRICANA: 

OS DESAFIOS E AS OPORTUNIDADES QUE A GLOBALIZAÇÃO ADICIONA À GESTÃO SANITÁRIA

23 DE JANEIRO DE 2020 

Peste Suína Africana (PSA) é uma enfermidade que ataca os suídeos domésticos e asselvajados (javalis e cruzamentos com suínos domésticos) e é causada por um vírus de grande virulência, caracterizando-se essencialmente por sua forma hemorrágica – ou seja, os sintomas clínicos podem ser febre alta, perda de apetite, letargia, hemorragias na pele e órgãos internos – com alta mortalidade, entre 4 e 10 dias (EMBRAPA, 2018¹). Não existem vacinas para Peste Suína Africana e 70% das causas de difusão da doença são derivadas da ação humana².

Desde meados de 2018, casos da enfermidade começaram a ser registrados na Europa e, na sequência, na Ásia. Até outubro de 2019, a China já havia abatido 1,19 milhão de cabeças de suínos. Relatório do Rabobank estima que a queda na produção de suínos na China pode ter atingido entre 25% e 35% em 2019. No Vietnã, há registro da enfermidade em todas as províncias, com mais de 5,6 milhões de animais sacrificados. Estimativas da OIE até outubro de 2019 indicam que o continente asiático soma quase 7 milhões de animais sacrificados (FAO, 2019, e SNA, 2019³).

A alta velocidade de espalhamento na Ásia decorre, em especial, dos seguintes fatores: elevada densidade de granjas; muitos dos países da região carecem de controle da movimentação e do abate de animais; intensa circulação ilegal de animais entre países da própria região; falta de mecanismos de compensação aos produtores na maioria dos países. Dessa maneira, muitos produtores vendem animais quando percebem sinais da doença. Um fator que agrava a situação de disseminação da doença é que as granjas têm muita água no solo e, ao se enterrar animais abatidos infectados, o vírus vai para a água.

 

No continente europeu, o grande desafio em relação a difusão da PSA encontra-se na movimentação de animais selvagens, cujo controle é inviável.

 

A América, por enquanto, é o único continente não infectado. Na região, as fronteiras terrestres são o maior fator de risco, pois não existe forma de controlar 100% da movimentação de animais (tampouco de pessoas) entre os países, principalmente em áreas de fronteira seca, sem rios e florestas. Sendo assim, a vigilância em grande escala é fundamental para prevenir a entrada do vírus e para a detecção precoce de uma eventual introdução da doença.

 

Os Estados Unidos são referência nesse aspecto, com uma forte cultura de biossegurança entre os produtores e um serviço sanitário com sistema de monitoramento e de ação rápida em casos de crise quando são identificados focos de doenças. É interessante ressaltar que o Serviço de Inspeção Sanitária de Plantas e Animais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (APHIS/USDA), a partir do modelo de simulação InterSpread e de um modelo econômico de equilíbrio parcial, já realizou um estudo sobre potenciais impactos de uma eventual introdução da PSA nos Estados Unidos.

 

Os resultados desse estudo mostram que, na média, um surto de PSA nos Estados Unidos poderia gerar uma perda econômica líquida com magnitude entre US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões. No caso de um surto de grande magnitude, o prejuízo poderia chegar a US$ 12 bilhões .

 

Os pesquisadores do APHIS/USDA consideram que, ainda que o modelo não seja totalmente adequado em relação à realidade, estes resultados são importantes para a tomada de decisão, isto é, para a escolha de estratégias na formulação dos planos de resposta e controle, em caso de crises sanitárias relacionadas à PSA.

 

Os países das Américas, enquanto grupo junto à Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), organizaram um Fórum sobre PSA e sobre Inquéritos aos Serviços Veterinários e Capacidades de Diagnóstico em abril de 2019, em Otawa, no Canadá. No evento, avaliou-se a situação epidemiológica atual no continente, foram acordadas linhas de trabalho em conjunto e planejadas atividades para reforçar a biossegurança, coordenação e comunicação dos riscos entre os países do continente². 

 

Em continuidade a estas atividades, houve ainda uma reunião em setembro de 2019 no Panamá de um grupo de especialistas em PSA dos países das Américas, com discussões e possíveis ações relacionadas às áreas de biossegurança, fronteiras, comunicação e animais selvagens. Em dezembro de 2019 outras duas reuniões desse grupo de trabalho foram realizadas, uma no México – onde foram discutidas questões sobre testes de laboratórios sobre a doença – e outra na Colômbia – momento em que foram apresentadas as ações já realizadas em cada país em relação à PSA e também uma agenda para 2020 com novas ações conjuntas, como os riscos de introdução da enfermidade nos países da América5

 

E o Brasil?

De acordo com estimativas da Embrapa, os prejuízos de uma introdução de PSA no Brasil, cuja população de suínos é cerca de dois terços da norte-americana, seriam em torno de US$ 5,5 bilhões. Contudo, destaca-se a dificuldade de se estimar valores, tendo em vista as particularidades da produção nacional e de parâmetros de dispersão, assim como a diferença nos sistemas de vigilância e de monitoramento.

 

Especialmente para Brasil, há recomendações elencadas pela Embrapa para a prevenção da entrada do vírus da PSA no País. Destacam-se: necessidade de se reportar imediatamente os casos suspeitos ao Serviço Veterinário Estadual; garantir um diagnóstico laboratorial rápido; necessidade de treinamento e capacitação de veterinários e produtores para reconhecer a doença; e, sobretudo, buscar adequar o sistema nacional de vigilância com base em fatores de risco para a PSA, garantindo apoio legal e provisão de recursos (fundos, diagnóstico) para a implementação de medidas de controle.

 

O desafio para o Brasil é trabalhar a cultura das notificações entre os produtores rurais (vigilância passiva), ao mesmo tempo em que se discute o formato de composição e funcionamento de um fundo ou sistema de financiamento da vigilância e para indenização passível de ser criado, público-privado, para dar um suporte técnico e financeiro para os produtores em situação de crise. Adicionalmente, é importante a modernização do sistema de vigilância ativa, incorporando cada vez mais o instrumento de análises de risco na tomada de decisão e as novas tecnologias disponíveis para monitoramento, integração de bases de dados, entre outras facilidades disponíveis, que permitem reduzir o custo dos serviços e aumentar a eficiência.

 

O Brasil tem muito a perder com as doenças que acometem rebanhos, perdas que vão além da produção e das transações comerciais, que causam impactos socioeconômicos importantes e que podem ter efeitos de longo prazo na imagem do País. Imagem, esta, que ainda precisa ser comunicada de forma mais fidedigna e confiável, informando os consumidores dos países importadores sobre a qualidade, inocuidade e confiabilidade dos nossos produtos agroindustriais, particularmente, em termos sanitários. Fonte Cepea.

 

¹ Embrapa: https://www.embrapa.br/suinos-e-aves/psa/nota-tecnica. Acesso em 18/10/2019. ² Informação de Luís Barcos, da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), no Siavs (Salão Internacional de Avicultura e Suinocultura), em 28 de agosto de 2019. 

³ FAO: “ASF situation in Asia”, acesso em 17/10/2019, e https://www.sna.agr.br/peste-suina-fao-eleva-para-6-954-milhoes-o-numero-de-animais-eliminados-pela-doenca-na-asia/, acesso 23/01/2020.  4 Informação da economista Kamina Johnson, do APHIS/USDA em comunicação pessoal no dia 21 de agosto de 2019. 5 “Informe: Primera reunión del Grupo Permanente de Expertos del GF-TADs de las Américas”. Disponível em https://rr-americas.oie.int/en/events/standing-group-of-experts-on-asf/ acesso 23/01/2020.

 

 

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