
A pecuária de corte de alta tecnologia pode ser mais lucrativa nos Campos Gerais do Paraná? A resposta foi apresentada na prática durante o primeiro Dia de Campo de Pecuária de Corte do Grupo Koelpe, realizado em 24 de abril, na Fazenda Varginha, em Castro. O evento reuniu produtores rurais, técnicos e especialistas para discutir como a integração entre lavoura e pecuária, aliada ao uso de dados, automação e novas estratégias produtivas, tem elevado a eficiência e a rentabilidade da atividade na região.
A proposta central do encontro foi mostrar que a pecuária, quando bem gerida e baseada em tecnologia, pode competir com outras atividades agrícolas mesmo em regiões onde o valor da terra é elevado. Ao longo do dia, os participantes percorreram estações de campo, acompanharam demonstrações práticas e trocaram experiências sobre modelos produtivos intensivos.
O gestor do Grupo Koelpe, Erik Petter, destacou que abrir as porteiras da fazenda foi uma estratégia para promover a troca de conhecimento entre produtores. Segundo ele, a evolução da pecuária passa justamente pela adaptação e inovação constante.
“A nossa intenção hoje é abrir a nossa casa para difundir ideias, trocar experiências e fazer benchmarking de novas tecnologias. A integração lavoura-pecuária tem se mostrado muito rentável, e queremos proporcionar um ambiente de aprendizado entre produtores”, afirmou.
Petter também ressaltou que os desafios enfrentados no dia a dia da propriedade foram fundamentais para impulsionar mudanças.
“Os problemas nos motivaram a buscar soluções, e essas soluções trouxeram novas técnicas e adaptações. Esperamos que isso inspire outros produtores a serem mais eficientes”, explicou.
A diversidade de sistemas adotados pelo grupo foi outro ponto evidenciado. A fazenda trabalha com ciclo completo, recria, engorda, semiconfinamento e confinamento, sempre buscando intensificação produtiva com foco em rentabilidade.

A gerente de pecuária do Grupo Koelpe, Gabriela Camargo, reforçou que o evento também teve o objetivo de mostrar que é possível desenvolver uma pecuária de corte altamente tecnificada em uma região tradicionalmente voltada à produção leiteira.
“Aqui nos Campos Gerais, onde o valor da terra é alto, precisamos de eficiência para competir com outras atividades. A pecuária de corte de alta tecnologia é uma alternativa viável e competitiva”, destacou.
Entre os destaques apresentados, o projeto Beef on Dairy ganhou atenção especial. A estratégia consiste no cruzamento de vacas leiteiras com touros Angus, gerando animais destinados ao corte.

“O Beef on Dairy veio para agregar à produção. Ele permite a compra de animais ao longo de todo o ano, mantendo o confinamento sempre cheio. Além disso, os resultados têm sido excelentes”, explicou Gabriela.
Outro ponto considerado essencial pela gestora é o uso de dados na tomada de decisão.
“A gente só consegue melhorar aquilo que mede. A gestão de dados é fundamental para entender se a atividade está sendo lucrativa e onde é possível evoluir”, afirmou.
Ela citou como exemplo o uso de uma balança automatizada acoplada ao sistema de água, que monitora diariamente o peso dos animais.
“Além de acompanhar o ganho de peso, conseguimos identificar rapidamente animais que não estão indo ao bebedouro, o que pode indicar algum problema de saúde e precisa de alguma intervenção.”, completou.
O zootecnista e consultor técnico da Cooperativa de Carne Maria Macia, Tomaz Gazola Zanin, destacou que o evento representa uma quebra de paradigmas na região.
“Os Campos Gerais são tradicionalmente voltados ao leite, mas aqui estamos mostrando que a pecuária de corte pode ser altamente produtiva e rentável”, afirmou.
Zanin também detalhou os benefícios do Beef on Dairy dentro do sistema produtivo. “Esse projeto ajuda a reduzir o custo de reposição e evita que a estrutura fique ociosa. Ele veio para preencher uma lacuna importante na produção”, explicou.
Apesar de um desempenho ligeiramente inferior em ganho de peso diário, o sistema compensa em outros aspectos.
“Os animais apresentam excelente qualidade de carne, com bom marmoreio e rendimento próximo de 55%. Mesmo exigindo mais tempo de confinamento, o custo menor de aquisição equilibra a conta”, disse.
Outro tema central do evento foi o manejo de pastagens, abordado pelo diretor técnico da Sia Brasil, Armindo Barth Netto. Ele enfatizou que o pasto deve ser tratado como uma cultura agrícola. “O grande resultado da pecuária começa no pasto. Não basta produzir bem, é preciso colher bem essa pastagem”, explicou.
Segundo ele, o planejamento forrageiro deve considerar as condições climáticas da região.
“Aqui em Castro, precisamos de pastagens que produzam bem no verão e também no inverno, com uso de aveia, azevém e outras variedades adaptadas”, afirmou.
A tecnologia também foi destaque na terminação intensiva a pasto, com sistemas automatizados de alimentação. “A automação resolve um dos maiores problemas da pecuária, que é a mão de obra. Ela garante fornecimento adequado de alimento todos os dias, aumentando a eficiência”, destacou.

A inovação estrutural também chamou atenção no evento. O diretor administrativo da Marinho Pré-Moldados, Bruno Fernando de Oliveira Lourenço, apresentou um sistema de Compost Barn adaptado para pecuária de corte.
“Esse modelo é comum na pecuária leiteira, mas aqui foi adaptado para o corte, proporcionando conforto térmico e melhor desempenho dos animais”, explicou.
A estrutura contribui para reduzir o estresse térmico e melhorar as condições de produção, especialmente em períodos de alta umidade.
O engenheiro agrônomo Carlos Roberto Madureira, que atua com integração entre pecuária e florestas, avaliou o sistema apresentado como altamente tecnificado.
“É um modelo completo, com recria, engorda e confinamento. A tecnologia aplicada aqui mostra o caminho para aumentar a rentabilidade da atividade”, afirmou.
Ele também destacou a importância da automação diante da escassez de mão de obra no campo. “Sistemas automatizados ajudam a reduzir custos e aumentam a eficiência. Em poucos anos, o investimento tende a se pagar”, disse.
Entre os participantes, o pecuarista Afonso Saldanha, de Ponta Grossa, ressaltou a relevância prática do evento.
“Estamos vendo soluções reais para problemas como seca e falta de alimento em períodos críticos. Isso faz diferença no dia a dia da propriedade”, comentou.
Sobre a automação, ele foi direto: “Com a dificuldade de mão de obra, esses sistemas ajudam a garantir que o animal receba o que precisa no momento certo, melhorando o resultado final.”

Ao longo do dia, ficou evidente que a pecuária de corte nos Campos Gerais está passando por uma transformação. A combinação entre tecnologia, gestão eficiente e integração de sistemas produtivos tem permitido ganhos expressivos de produtividade.
O Dia de Campo do Grupo Koelpe mostrou, na prática, que o futuro da pecuária passa por decisões baseadas em dados, uso inteligente de recursos e adoção de inovações que aumentem a eficiência sem comprometer o bem-estar animal.
Mais do que apresentar resultados, o evento reforçou uma mensagem essencial: a pecuária moderna exige planejamento, investimento e, sobretudo, abertura para mudanças.
