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Gargalos da cadeia da carne pautam segunda edição de Fórum do setor

Evento promovido pelo Instituto Desenvolve Pecuária reuniu em Porto Alegre nomes importantes do setor varejista, da indústria e produção para falar sobre alternativas à carne gaúcha

Por: Redação
28/07/2023 às 15h39
Gargalos da cadeia da carne pautam segunda edição de Fórum do setor
Foto: Nestor Tipa Júnior/AgroEffective

Pela segunda vez, produtores, indústria e varejo se reuniram para debater os problemas que envolvem a cadeia da carne bovina gaúcha. O Fórum organizado pelo Instituto Desenvolve Pecuária foi realizado nesta sexta-feira, 28 de julho, na sede da Farsul, em Porto Alegre (RS), com o título “As alternativas para a carne gaúcha na visão do varejo, da indústria e da produção”.

Na abertura, o presidente do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados no Estado do Rio Grande do Sul (Sicadergs), Ladislau Böes,  ressaltou que a ociosidade da planta frigorífica está em 50% hoje, mesmo com a boa oferta de gado, e apresentou o dado de que 40% da carne bovina vendida no RS é de fora, ou seja, vinda de outros estados.

“Não é a indústria gaúcha que traz esta carne, mas o varejo e a indústria de outros. E o poder aquisitivo da população faz com que procurem uma carne mais barata”, disse Böes, justificando que a indústria gaúcha não é a responsável pela queda do preço do boi, que também ocorreu em outros países, como no Uruguai. Já o diretor da Farsul, Francisco Schardong, afirmou entender que o Fórum é “um carinho à nossa pecuária que precisa de apoio para seguir a sua trajetória”. 

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Já o presidente do Instituto Desenvolve Pecuária, Luis Felipe Barros, disse que o auditório lotado era a representação da dor do pecuarista. Barros disse que se colocar na balança só o valor, não dá para competir com a carne de fora. “Mas se botar qualidade e a questão da sustentabilidade da carne gaúcha, daí podemos competir. Ninguém explora sabor, maciez, sustentabilidade nas embalagens da carne que vai para o varejo”, afirmou. Ele anunciou que o Instituto está elaborando uma campanha de caráter pedagógico que objetiva esclarecer o consumidor sobre questões de origem. 

A primeira palestra foi do economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz. Ele iniciou fazendo referência ao pai, que foi leiloeiro e cresceu em meio aos pecuaristas. Disse que segue ouvindo as mesmas queixas de quando tinha 14 anos. Da Luz apresentou duas marcas de carne com 33% de diferença, sendo a carne de fora do RS a mais barata. “Nós temos que conscientizar as pessoas, sim, sobre o que estão comprando. Há quem possa pagar os mais de R$ 80 pela picanha, mas outros só  comprarão a mais barata”, disse. Ele ressaltou que o importante é entender a razão desta diferença. Para tentar explicar as razões, até mesmo comparou a distância entre os frigoríficos e o mercado, onde pesquisou os valores. No caso, o da peça mais barata é de Rondônia.

“Não tem conspiração que explique um produto a mais de 3 mil quilômetros chegar mais barato no mercado em Porto Alegre”, afirmou. As razões são em produtividade, o modo de fazer as coisas, tanto pelo produtor quanto pela indústria, avaliou o economista. “Ou nós como cadeia estamos sendo incompetentes ou estamos nos posicionando equivocadamente”, refletiu. Antônio da Luz disse, ainda, que é importante também saber quem é o consumidor médio. “Está tudo na mesma gôndola e é importante a campanha que o Instituto vai lançar para esclarecer as diferenças”, complementou. 

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Valdecir Pressi, da rede Asun, disse que os supermercadistas estão pensando no que vai acontecer daqui para frente, em constante evolução. Ao realizar a ligação entre o varejo e a indústria, disse que é importante focar em melhorias tecnológicas, mas sem esquecer das pessoas. “A tecnologia é só parte disso, pois a transformação está dentro de nós”, afirmou. Pressi ressaltou que aqui no estado ainda é muito forte a preferência e que o consumidor gosta de comprar com o açougueiro e ter a carne fracionada no ato da compra. “Vemos que ainda há muito individualismo na relação entre o supermercado e o frigorífico”, disse o consultor, destacando que a parceria tem que ser maior, com critério para exposição de marcas e informações para o consumidor. Para o futuro, Pressi vê a tendência de fracionamento com o avanço de normas legais, onde serão agregados cortes especiais, e que será preciso esclarecer quanto aos preços justo e promocional. 

Armando Brasil Salis, diretor do Frigorífico Campeiro, relatou que em 2000 as marcas começaram a diferenciar as carnes, com as denominações nas etiquetas. Contou que o Campeiro, percebeu que a partir de 2020, o que passou a valer foi a experiência. Ele relatou que dentro do Programa Sabor da Campanha, quando incluíram o QR Code com informações de origem, viu amigos se telefonarem para contar sobre a carne de quem estava consumindo. Estratégias como a de criar marcas para determinados consumidores também foi um dos critérios para competir com a chamada carne commodity. Outro exemplo foi a criação do Selo Aliança, onde o consumidor pode conferir a carne originada de gado criado a pasto. “Precisamos comunicar e nossa sorte é que hoje há o meio digital onde podemos fazer isso”, ressaltou. Ele concluiu que o desafio é levar o produtor para dentro da gôndola do supermercado. “O futuro, para nós, podem me chamar de louco, mas é o terroir. O boi de Dom Pedrito é diferente do boi de Uruguaiana e se pudermos explicar isso, talvez possamos fazer um mercado almejado por todos”, disse. 

Bruno Delazari Lang, do Supermercado Lang e representante da Agas Jovem, disse que, quando criança, via pais de amigos comprando carne de outros mercados e não no da família e que isto o fez buscar conhecimento para evoluir o negócio. “Parte do que alcançamos foi conseguido com base no que estudei sobre o meu açougue”, garantiu. Voltando-se diretamente à indústria, disse que o supermercadista não conhece todas as linhas que a indústria produz. O empresário mostrou que teve a necessidade de mudar a cultura dos seus funcionários em busca do objetivo de ser referência no açougue. Entre as ações, destacou o fracionamento da carne e a oferta no autoatendimento e mix de produtos. Ainda como diferencial, Bruno contou do contato direto com o cliente e a personalização. “O cliente me chamou, falou como seria a festa, quantas pessoas e o valor que gostaria de pagar por pessoa. Montamos o kit com uma sugestão de cardápio”, contou o empresário, mostrando ainda a mensagem personalizada que vai na embalagem.  

Ivan Faria, presidente da Comissão de Relacionamento com o Mercado do Instituto Desenvolve Pecuária, iniciou com uma analogia entre o globo terrestre e uma bola de cristal. Segundo ele, é importante a leitura dos 200 sócios do Instituto frente aos acontecimentos mundiais. Também citou a pandemia por Covid-19 e a guerra na Ucrânia como fatos que mudam o cenário de uma hora para outra.

“A seca, velho problema que não conseguimos resolver mostra que não temos o cenário que o Centro-Oeste possui, de pluviosidade, mas precisamos resolver”, disse o pecuarista. Faria, ao comentar sobre o mercado de exportação para a China, ressaltou que hoje se tem o cliente pagando o preço que quer pelo produto. “Mas as exportações de gado vivo, em momentos de baixa, são boas para o pecuarista”, ressaltou. Ao citar o avô, Mocinho Faria, que disse ser seu inspirador, afirmou acreditar que o pecuarista só se mantém no negócio por paixão. “Precisamos de organização e permaneceremos apaixonados enquanto o negócio nos permitir respirara”, completou. 

 

Júlio Barcellos, coordenador do NESPro/Ufrgs, foi o último palestrante do dia e propôs olhar para dentro da porteira. “A conjuntura é circunstancial e me preocupo com problemas de natureza estrutural que sempre se repetem”, afirmou, ao ressaltar que o Fórum não é um evento de economia, mas de governança. O professor destacou que até 2026, chegará ao mercado o produto que pode ser gerado em novembro deste ano. “Mil dias nos separam da atitude de hoje”, afirmou Barcellos. Conforme o professor, inteligência, dados e informação devem ser levados para dentro da porteira e fazem parte da alavanca da competitividade para sobreviver. O ciclo proativo das decisões, conforme Barcellos, é análise de dados, tomada de decisão e atitude. 

Após as palestras, foi realizada uma mesa redonda onde foram debatidos os dados apresentados pelos convidados. A coordenação da mesa foi da produtora Fernanda Costabeber.

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