
Algumas preocupações relevantes do atual governo estão relacionadas ao aumento dos investimentos nacionais e estrangeiros no país, à reindustrialização, meio ambiente e mudanças climáticas, crescimento do comércio interno, tratado e relações internacionais, ambiente adequado para o mercado das commodities produzidas no país, segurança e paz mundial. Para executar com sucesso a maior parte destas preocupações, o planejamento integrado do setor energético passa a ser componente relevante para o país
A redução progressiva nos custos da energia elétrica entra como forma de eliminar ou reduzir algumas das restrições ao crescimento do país. Existe o objetivo governamental de proporcionar um desenvolvimento rápido e contínuo e este custo constitui importante dispêndio para qualquer empresa e também para a população
A renda gerada com esta redução pode proporcionar maiores investimentos ou elevar o consumo da população. O Brasil atravessa o desafio de gradativamente aumentar a produção de energia através da “geração intermitente” em detrimento das usinas de “energia firme”. As usinas de “energia firme” são aquelas formadas pelas usinas hidroelétricas com grandes reservatórios, geradoras com fontes em combustíveis fósseis e nucleares
As fontes de “geração intermitente” são a eólica e a solar. Diversas justificativas relacionadas ao meio ambiente, energia limpa e novas intenções quanto às perspectivas de descarbonização favorecem esta estratégia de substituição. Um intenso aumento na demanda por energia no Brasil é estimado considerando os acréscimos causados pelos programas relacionado aos novos investimentos, à reindustrialização, ao crescimento da produtividade agrícola e do setor de serviços e ao aumento no adensamento urbano com a expansão da construção civil
Incontáveis novos pontos de carregamento dos veículos elétricos estão em planejamento e muitos já em operação. Sem um planejamento adequado, fica desconhecido a necessidade de estímulos para o crescimento na geração distribuída, particularmente nos centros urbanos em crescimento
O fenômeno “El Niño” está com o seu retorno anunciado. Ele causa um aumento das temperaturas e diminuição das chuvas nas regiões sudeste e sul, onde estão localizados os principais reservatórios das hidroelétricas, responsáveis por significativa participação na geração de energia do país
Um aumento no preço da energia elétrica em consequência deste evento climático periódico já está sendo previsto
Mesmo a perspectiva de reduzir o preço de energia, e que existe a partir da livre escolha do fornecedor em baixa tensão, pode se frustrar. O prazo para implantação deste processo está inicialmente previsto para janeiro de 2026
Esta estratégia permite que as empresas migrem do mercado cativo de energia para o livre. Não estão incluídas as classes dos consumidores “residencial” e “rural”, que poderão migrar somente a partir de janeiro de 2028. O Brasil possui uma grande área territorial com diferentes características em suas regiões. É o quinto maior do mundo, sendo menor apenas que a Rússia, Canadá, China e Estados Unidos
O Operador Nacional do Sistema (ONS) é o órgão responsável pelo despacho de energia, coordenação e controle da operação das instalações de geração e transmissão de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional (SIN). Ele seleciona qual a linha de transmissão que a energia deve percorrer a partir de sua geração. A dimensão do Brasil, regiões e áreas de produção e de consumo, com as suas condições particulares, faz com que por várias vezes a energia elétrica percorra grandes distâncias
Existem, portanto, riscos além do clima e que em muitas ocasiões são imprevisíveis nas operações do ONS. Assim, quanto mais local ou regional for a transmissão e consumo, menores são os riscos que podem existir na transmissão e na distribuição de energia. As tarifas de energia brasileira, para a baixa tensão, e que são coordenadas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), são sensíveis ao risco de clima
O nível da água nas hidrelétricas é o principal fator. Na falta de água sobre os principais reservatórios de acumulação, é necessário despachar a energia gerada pelas termelétricas que utilizam combustíveis fósseis, o que causa um aumento no preço da energia. Atualmente, existem três bandeiras tarifárias, sendo que uma delas possui dois patamares. São conhecidas como “bandeira verde”; “bandeira amarela” e “bandeira vermelha patamar 1e 2”
Da verde para a vermelha, maior é o acréscimo por consumo de energia. A não cobrança das tarifas nas faixas elevadas representa um sucesso no planejamento energético do país. A cobrança nas faixas elevadas caracteriza um estímulo ao racionamento de energia. A menor tarifa, a bandeira verde, colabora reduzindo a inadimplência das concessionárias de distribuição de energia
Quando ocorre falta de água para as hidroelétricas, o mercado livre para os consumidores de energia em alta tensão também reage com elevação nos seus preços. O país, quando se trata de economia sustentável, é um importante protagonista mundial, e possui crescentes investimentos em energia verde, como o fotovoltaico, eólico e o etanol. Mais recentemente, existem pesquisas em fase inicial para a produção do hidrogênio verde. Este hidrogênio, livre de gás carbônico, constitui etapa importante para atingir níveis superiores de descarbonização
Adicionalmente, possui um importante posicionamento geopolítico no hemisfério sul, podendo colaborar complementando estrategicamente algumas fontes energéticas durante o inverno europeu, quando a necessidade de energia para o aquecimento é maior naqueles países
Implementar um planejamento energético integrado regional e local, utilizando a “geração intermitente”, representa um passo importante para o desenvolvimento do país. Este passo colabora com a descarbonização e com o processo de nova transição energética. A participação das instituições de financiamento do governo federal, juntamente com as prefeituras e empresários com interesses locais, pode ser o elemento catalizador para o sucesso deste programa. O país possui inegáveis vantagens comparativas quando se relaciona à produção de etanol e outras que tenham como fonte o vento e o sol, e que brevemente poderá incluir a produção e até o consumo do hidrogênio verde
É necessário prover uma redução gradativa nas tarifas e preços da energia elétrica, aumentar a capacidade de geração, fazer frente ao “El Niño”, aos diversos riscos imprevistos e localizar os pontos de geração e consumo da energia elétrica como elemento essencial para estimular o processo de desenvolvimento do país.
*Agostinho Celso Pascalicchio - Professor da Escola de Engenharia (EE) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).
Sobre a Universidade Presbiteriana Mackenzie
A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) está na 71a posição entre as melhores instituições de ensino da América Latina, segundo a pesquisa Times Higher Education 2021, uma organização internacional de pesquisa educacional, que avalia o desempenho de instituições de ensino médio, superior e pós-graduação. Comemorando 70 anos, a UPM possui três campi no estado de São Paulo, em Higienópolis, Alphaville e Campinas. Os cursos oferecidos pelo Mackenzie contemplam Graduação, Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, Pós-Graduação Especialização, Extensão, EaD, Cursos In Company e Centro de Línguas Estrangeiras.