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Cooperativismo e feiras agropecuárias: a engrenagem silenciosa do crescimento rural

Quando cooperativas e feiras se articulam, o campo deixa de ser periferia produtiva para ocupar o centro estratégico do desenvolvimento regional.

Por: Redação Fonte: Vinícius Brizola de Oliveira
05/08/2025 às 21h10
Cooperativismo e feiras agropecuárias: a engrenagem silenciosa do crescimento rural
Vinícius Brizola de Oliveira

Muito além de tradições ou festividades, o cooperativismo e as feiras agropecuárias compõem uma engrenagem silenciosa — porém decisiva — da economia rural contemporânea. Brasil e Estados Unidos são exemplos de como essas estruturas, quando bem organizadas, geram escala, agregam valor e impulsionam desenvolvimento de forma integrada e sustentável.

No Brasil, o cooperativismo agrícola tem se consolidado como uma das principais estratégias de inclusão produtiva e fortalecimento da agricultura familiar e empresarial. Segundo dados da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o país conta com aproximadamente 1.223 cooperativas agropecuárias, reunindo quase 1 milhão de associados e gerando mais de 207 mil empregos formais. Evidências empíricas mostram que a presença de cooperativas em municípios brasileiros tem impacto direto sobre a renda líquida dos produtores. Um estudo apontou ganhos médios anuais adicionais de até US$ 4,1 milhões por cooperativa, resultado da maior eficiência na gestão, acesso a crédito, negociação coletiva de insumos e escoamento da produção.

Nos Estados Unidos, onde o ambiente regulatório e o financiamento rural possuem maior maturidade, as cooperativas são igualmente relevantes. De acordo com o National Council of Farmer Cooperatives (NCFC), existem mais de 3.000 cooperativas agroindustriais no país, abrangendo cerca de 2 milhões de agricultores. A agropecuária norte-americana movimentou em 2023 aproximadamente US$ 517 bilhões em receitas — sendo US$ 267,4 bilhões de lavouras e US$ 249,6 bilhões de produtos de origem animal —, e responde por 5,5% do PIB nacional, empregando mais de 22 milhões de pessoas, o equivalente a 10,4% da força de trabalho. As cooperativas têm papel central nesse resultado ao democratizarem o acesso à armazenagem, à logística e à inserção em mercados globais.

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O impacto das feiras agropecuárias, embora mais visível em seu aspecto cultural, é também marcante do ponto de vista econômico. No Brasil, ainda que os dados sejam mais fragmentados, eventos como a ExpoLondrina (PR), Expointer (RS), e Fenamilho (MG) movimentam anualmente centenas de milhões de reais em negócios, atraem milhares de visitantes e funcionam como hubs de inovação, relacionamento e formação técnica. São ambientes onde se concretizam negócios entre produtores, fornecedores, compradores, startups e agentes financeiros.

Nos Estados Unidos, a profissionalização e escala desses eventos tornam o impacto ainda mais tangível. A Eastern States Exposition, mais conhecida como Big E, gerou sozinha em 2024 um impacto econômico de US$ 1,167 bilhão na região nordeste do país, segundo estudo recente da ESE. Foram mais de 8.000 empregos temporários e permanentes, US$ 439 milhões em renda pessoal e um estímulo considerável ao turismo e ao comércio local. A Houston Livestock Show & Rodeo, considerada uma das maiores feiras agropecuárias do mundo, movimentou US$ 326,4 milhões em impacto econômico em sua última edição, número comparável ao legado financeiro do Super Bowl de 2017, realizado na mesma cidade.

Quando cooperativas e feiras se articulam, o campo deixa de ser periferia produtiva para ocupar o centro estratégico do desenvolvimento regional.

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Esse protagonismo decorre da complementaridade entre os dois modelos. As cooperativas organizam a base produtiva, asseguram escala, reduzem riscos e impulsionam ganhos de eficiência. As feiras, por outro lado, ampliam a visibilidade das soluções e inovações tecnológicas, facilitam a conexão entre elos da cadeia e promovem dinâmicas de aprendizado e experimentação que dificilmente ocorreriam em ambientes tradicionais.

Em tempos de transição ecológica, pressões inflacionárias e reconfiguração das cadeias globais de suprimento, o papel dessas estruturas ganha ainda mais relevância. São elas que permitem ao produtor rural — especialmente o pequeno e médio — acessar mercados, se financiar com taxas competitivas, modernizar a produção e alcançar o consumidor final com maior valor agregado.

A combinação entre associativismo e exposição pública qualificada é, portanto, um diferencial competitivo. Seja nos cinturões agrícolas do Meio-Oeste norte-americano ou no coração do agronegócio brasileiro, está cada vez mais claro que investir em cooperação e visibilidade técnica é investir na resiliência econômica e na coesão territorial.

O cooperativismo e as feiras agropecuárias não são meros instrumentos de comercialização — são alavancas estratégicas de soberania produtiva e inteligência coletiva no campo.

Economia e Agro
Economia e Agro
A Coluna Economia e Agro é escrita pelo economista Vinícius Brizola de Oliveira, atual Secretário da Fazenda do município de Piraí do Sul, nos Campos Gerais, que conhece o potencial econômico da região. Já trabalhou por mais de uma década no setor do agronegócio na área de finanças e, hoje, no setor público, complementa sua visão sobre as necessidades da região.
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