
O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 30 de junho, trouxe sinais discretos, mas relevantes, de que o mercado começa a enxergar uma inflexão nos principais indicadores macroeconômicos. A projeção para a inflação de 2025 recuou pela quinta semana consecutiva, de 5,24 % para 5,20 %, sinalizando que as pressões inflacionárias, especialmente sobre alimentos e combustíveis, podem estar perdendo força. Ainda assim, o índice segue acima do teto da meta de 4,5 %, o que mantém o Banco Central em posição de cautela.
Apesar do alívio nos preços, o cenário de juros elevados permanece. A expectativa para a taxa Selic ao fim deste ano segue em 15 % ao ano, sem alterações. O mercado aposta que apenas em 2026 haja espaço para cortes mais significativos, com a taxa recuando para 12,5 %. Essa projeção reflete uma política monetária que continuará apertada no curto prazo, dificultando a expansão do crédito e dos investimentos produtivos. A combinação entre inflação elevada e juros altos ainda impõe um freio importante à atividade econômica.
“A economia dá sinais de fôlego, mas ainda respira sob o peso da taxa básica de juros.”
Mesmo assim, há uma leve melhora nas perspectivas para o crescimento. O PIB de 2025 foi mantido em 2,21 %, enquanto a estimativa para 2026 avançou ligeiramente de 1,85 % para 1,87 %. Essa revisão positiva, ainda que modesta, indica uma confiança gradual na resiliência de setores como o agronegócio e o consumo, além da expectativa de estímulos econômicos vindos do governo federal. É uma projeção que caminha a passos lentos, mas aponta na direção certa.
O câmbio também apresentou um movimento de acomodação. A estimativa para o dólar ao final de 2025 recuou de R$ 5,72 para R$ 5,70, e para 2026, passou de R$ 5,80 para R$ 5,79. Embora sejam ajustes mínimos, eles refletem menor volatilidade cambial e uma percepção mais estável sobre o fluxo de capitais no país.
No conjunto, o boletim Focus revela um cenário de transição: a inflação começa a ceder, o câmbio se estabiliza, mas os juros seguem elevados e o crescimento econômico ainda é tímido. Há uma tênue janela de otimismo se abrindo, mas ela exige prudência. A condução da política monetária e o ambiente fiscal continuarão sendo os principais vetores de confiança — ou de instabilidade — nos próximos meses.
Seja como for, o mercado parece entender que o pior momento pode estar ficando para trás. A consolidação desse movimento, no entanto, dependerá da manutenção do controle inflacionário, do compromisso com as metas fiscais e de uma retomada mais firme da atividade real. O Brasil, mais uma vez, caminha sobre uma corda bamba entre a esperança e a realidade. E, por enquanto, ainda sem rede de proteção.