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Com plantio que atravessa gerações, produção de poncã é a marca de Cerro Azul

Município é o maior produtor nacional de tangerina e cultiva 10% da fruta do País. A combinação de relevo e clima – com altas altitudes e amplitude térmica – facilitaram a citricultura no Vale do Ribeira, que responde por 80% da tangerina paranaense, com uma produção concentrada nas propriedades familiares.

Por: Redação
23/08/2021 às 11h20
Com plantio que atravessa gerações, produção de poncã é a marca de Cerro Azul
Com plantio que atravessa gerações, produção de poncã é a marca de Cerro Azul. 05/2021 - FotoS: Gilson Abreu/AEN

A geografia e o clima do Vale do Ribeira, com um horizonte cheio de morros e a amplitude térmica que intercala o calor do dia com o friozinho da noite, trouxeram um sabor único e marcante à poncã de Cerro Azul. Tanto que a fruta se tornou uma das grandes marcas do município, maior produtor nacional do cítrico, responsável por 10% das tangerinas – ou mimosas para os curitibanos – produzidas no País. As várias plantações, com árvores cheias de frutos amarelos, dão, inclusive, um charme a mais à bela paisagem da cidade.

A vocação do Vale do Ribeira para a citricultura, de Cerro Azul em especial, foi identificada muito cedo, ainda na época do Império, e atravessou gerações. No início, a predominância era da laranja, mas já faz cerca de 50 anos que a poncã ganhou as graças no cultivo. A rusticidade da planta, que não exige um manejo muito refinado ou o uso intensivo de agrotóxicos para o controle de pragas, pesou bastante nesse processo.

O clima e a geografia do Vale deram o toque final, resultando em sabor e qualidade únicos. Aquele velho conhecimento popular, que diz que a tangerina fica mais doce depois de uma geada, se aplica bem em Cerro Azul. A diferença na temperatura em um mesmo dia “estressa” a planta, que em resposta acaba produzindo mais frutose, o açúcar das frutas.

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“A poncã de Cerro Azul é diferenciada, tem mais suco, uma coloração mais marcante e, por causa do clima e da altitude, é mais doce do que as produzidas em outros locais”, garante o prefeito Patrik Magari. “Estamos inclusive em processo para obtenção da Indicação Geográfica, que determina que certo tipo de produto é encontrado somente naquele local. Nossa intenção é conseguir esse reconhecimento em até dois anos”, diz.

NÚMEROS – Segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, 80% da tangerina paranaense é colhida no Vale do Ribeira. O Estado é o segundo maior produtor do cítrico no Brasil, atrás apenas de São Paulo. As frutas são comercializadas principalmente na região de Curitiba, mas destinadas também a outras regiões do Paraná e a estados vizinhos como Santa Catarina.

A área plantada em Cerro Azul chegou a 3.280 hectares em 2019, quase a metade do cultivado no Estado, com 7.210 hectares plantados, conforme os dados mais atualizados do Deral. O município respondeu por 43% da produção, com uma colheita de 50.740 toneladas – no Paraná, foram colhidas 118.037 toneladas. O Valor Bruto da Produção (VBP) da tangerina em Cerro Azul foi de R$ 55,9 milhões. No Estado, o VBP foi de R$ 129,8 milhões.

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Além de Cerro Azul, o município vizinho de Doutor Ulysses, também no Vale do Ribeira, se destaca no cultivo de tangerina. Doutor Ulysses colheu 32.450 toneladas em 2019, com VBP de R$ 35,7 milhões. A cultura está presente, ainda, em Rio Branco do Sul, Paranavaí, Itaperuçu, Londrina, Ângulo, Francisco Beltrão, Campo Largo, Castro, entre outros.

PRODUÇÃO FAMILIAR – Agilson França, de 27 anos, faz parte da terceira geração de uma família de agricultores que tem a poncã como carro-chefe da produção. A propriedade, com aproximadamente 5 mil hectares, tem cerca de 3,6 mil pés de tangerinas e produz também mandioca – a raiz é produzida em consórcio com o cítrico, sendo plantada junto com as árvores jovens enquanto elas ainda não estão produzindo, além de produtos para o gasto da família.

“É um trabalho de família, que passou de geração em geração. Quando eu nasci meu pai e minha mãe já plantavam e antes deles os meus avós. E a tendência é sempre aumentar, com a renovação constante dos pés”, explica Agilson.

 

Assim como na família França, a produção de poncã está concentrada nas pequenas propriedades. “A cultura deu muito certo aqui, por se adaptar muito bem ao clima e não exigir muito manejo. O agricultor faz duas roçadas por ano e já colhe um produto de qualidade”, afirma o secretário municipal da Agricultura e Meio Ambiente, Luiz Paulus. “A tangerina é quase orgânica, porque não se usa muito veneno, tem uma prática mínima de defensivos. O pequeno produtor se adapta bem a esse cultivo, e a produção dá um bom retorno”, diz.

PESQUISA – As plantas de Agilson França, assim como de outros produtores de Cerro Azul, têm papel importante dentro de uma pesquisa  que está sendo desenvolvida há cerca de um ano pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná-Iapar-Emater (IDR-Paraná), em parceria com a prefeitura e o Sebrae/PR. O objetivo é usar o melhoramento genético para selecionar as plantas de mais qualidade e que se adaptam melhor às diferentes altitudes.

As primeiras mudas desenvolvidas foram entregues no início de junho a 20 produtores, os mesmos que destinaram à pesquisa as borbulhas com o material genético de plantas já adaptadas à região. “A ideia é selecionar diversos tipos de genótipos, com diferentes tipos de maturação, para que a safra possa esse estender mais, além de mais sanidade e grande potencial de produção”, explica Gustavo Hartmann, engenheiro agrônomo da Secretaria Municipal da Agricultura.

“Foram selecionados os materiais que já são da região, mas dentro de um sistema de produção de mudas que é regulamentado pelo Ministério da Agricultura. A maneira como elas são feitas hoje ainda é muito rústica, não conta com uma tecnologia integrada. As mudas são produzidas a céu aberto, ficando sujeitas a diversos tipos de doenças”, diz.

A previsão é que o estudo se estenda por, pelo menos, mais cinco anos, para entender o comportamento e avaliar a estabilidade das plantas selecionadas. “Os produtores poderão ser orientados para a produção de mudas no futuro, mas primeiramente precisamos ter a noção de como será a adaptabilidade do material, com relação tanto às características de produção como com a questão fitossanitária”.

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