
Da detecção precoce de doenças nas folhas ao monitoramento de rebanhos por drones, a inteligência artificial (IA) vem se consolidando no agronegócio brasileiro. Durante o painel sobre o uso da IA na agricultura, promovido na Reunião de Pesquisa de Soja, em Londrina (PR), nos dias 10 e 11 de junho, Stanley Oliveira, chefe-geral da Embrapa Agricultura Digital, apresentou um panorama com as aplicações atuais da ferramenta, associada a uma visão para o futuro.
Em termos globais, Oliveira afirma que a China lidera a robótica agropecuária e o uso massivo de constelações de satélites para mapeamento terrestre. Por outro lado, os Estados Unidos dominam o mercado de inovação, concentrando quase 40% das AgTechs (startups do agronegócio) do mundo. E o Brasil vem atuando no desenvolvimento de soluções voltadas para a agricultura tropical.
No caso da soja, principal commodity brasileira, Oliveira aponta a pulverização seletiva como um dos casos de práticos de aplicação da ferramenta. "Temos equipamentos que detectam a área com infestação de plantas daninhas e aplicam o herbicida, de forma customizada”, explica. “Um estudo de caso no Mato Grosso mostra que o retorno financeiro desse investimento se paga em apenas dois anos", ressalta Oliveira.
Oliveira pontua ainda que as soluções de IA operam em ritmo acelerado na agricultura de precisão. “O monitoramento por satélite e a visão computacional já permitem classificar culturas em tempo real e diferenciar, de forma automatizada, a plantação das ervas daninhas”, ressalta. Outro avanço exemplificado, pelo chefe da Embrapa Agricultura Digital é a robótica agropecuária. O mercado já conta com pequenos robôs capazes de circular por fileiras de pomares e realizar a contagem precisa de frutas, como maçãs e laranjas, sem sequer tocar nas árvores.
Além dos cases atuais, Oliveira vislumbra que os próximos cinco anos reservam uma revolução orientada por dados. Neste sentido, o palestrante aponta a introdução dos "gêmeos digitais" (digital twins) na agropecuária. A tecnologia consiste em criar uma réplica virtual idêntica da propriedade rural. Com isso, os produtores poderão simular toda uma safra antes mesmo do plantio. "Vamos usar a IA para olhar o presente e projetar o futuro, simulando quebras de safra e possíveis problemas. Isso traz uma realidade preditiva e muito mais rápida para o produtor brasileiro", afirma.
Além disso, Oliveira defende que a IA irá acelerar os processos e encurtar prazos na ciência. No melhoramento genético de plantas e animais, por exemplo, a ferramenta pode reduzir o desenvolvimento de novos produtos, graças ao cruzamento acelerado de grandes volumes de dados.
Capacitação e acesso Digital - Apesar do cenário otimista, Oliveira diz que o setor enfrenta duas grandes barreiras: a escassez de mão de obra no campo e a falta de capacitação tecnológica. Segundo ele, a Embrapa tem em seu planejamento colaborar no combate à desigualdade e incluir os médios e pequenos produtores: que representam cerca de 80% do setor. Entre os pilares apontados pelo palestrante, estão a democratização da tecnologia.
“É preciso socializar o conhecimento técnico por meio de plataformas acessíveis, inclusive em parceria com as big techs”, diz. Além disso, Oliveira aponta a digitalização como alternativa para automatizar o máximo de processos possíveis e a desmonetização para baixar o custo das aplicações das soluções de IA e ampliar o acesso à ferramenta.
Oliviera reforça também que a Inteligência Artificial deve ser vista como uma aliada dos processos de trabalho e não como uma ameaça aos empregos. "Ao falar de IA não estamos dizendo que haverá redução de empregos, mas sim ganho de produtividade, redução de custos e mitigação de riscos. O produtor que antes fazia tudo de forma manual deve ser capacitado para usar a IA na linha de frente, otimizando os processos dentro da fazenda", conclui.