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Da colheita à xícara, café dribla adversários gerados pela pandemia

Isolamento social, dólar valorizado e o clima favorável influenciaram setor paranaense nesta temporada, que precisou se adequar à nova realidade

Por: Redação Fonte: Redação
26/08/2020 às 16h09
Da colheita à xícara, café dribla adversários gerados pela pandemia
Segundo o relatório do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), no primeiro semestre deste ano o Brasil exportou 19,6 milhões de sacas do produto (79% de café do tipo arábica).

As mudanças de hábitos impostas pelo isolamento social, resultado da pandemia do novo coronavírus, imprimiram efeitos na cadeia do café do Paraná, a começar pelas cafeterias, que tiveram que fechar, passando pela mão de obra utilizada na colheita, que precisou seguir novos protocolos de saúde, até as exportações, que em junho obtiveram receita de R$ 1,7 bilhão, aumento, em reais, de 19,9% em relação ao mesmo mês de 2019.

Do ponto de vista do campo, parece que a crise não existe. Com praticamente todo café paranaense já colhido, essa é uma das melhores safras dos últimos tempos, em termos de qualidade. “Nunca tive um percentual de cereja descascado igual a esse: em torno de 60%. Como não teve chuva continuada, melhorou muito a qualidade. Fazia uns cinco anos que não tinha uma colheita tão boa”, comemora o produtor Ricardo Batista Santos, de Congonhinhas, no Norte Pioneiro.

O preço também foi motivo de comemoração. “Chegou a R$ 510 a saca do ‘bica corrida’”, como Santos se refere ao café convencional comercializado junto às cooperativas. Lotes de café de qualidade superior podem obter quatro vezes este valor. Nesses casos, o produtor comercializa por meio da Cooperativa de Produtores de Cafés Especiais do Norte do Paraná (Coccenp), que vende o produto para cafeterias e outros locais especializados.

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“Houve procura muito grande de café esse ano. Nos primeiros meses da pandemia ficou meio travado, mas depois voltou ao normal”, relata o produtor.

Este ano é de “safra cheia”, segundo Santos, pelo fato dos pés de café produzirem a pleno vapor, ao contrário de outros anos quando passam pelo esqueletamento, podas bruscas para aumentar a produtividade. A média do produtor nos últimos quatro anos foi de 55 sacas de café beneficiado por hectare, contra 70 sacas/ha nesta temporada.

“As condições climáticas favoreceram a concentração das florações, isto é, uma florada mais perto da outra. Isso proporciona a predominância de um grão mais maduro e mais uniforme e traz facilidades na hora da colheita. Além disso a estiagem do início do ano não teve impacto severo na granação do fruto”, explica a técnica do Departamento Técnico (Detec) do SENAR-PR Jéssica D’ângelo. “A seca deste ano foi bastante benéfica para o café, pois induziu à maturação mais precoce dos frutos”, afirma o cafeicultor Tumoru Sera, de Congonhinhas.

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Dólar expresso

Tumoru começou a plantar café nos anos 1990 quando o preço pago pela saca do produto era “pior do que péssimo”, na casa dos US$ 60. Hoje, uma saca é cotada a mais de US$ 100, chegando a valores maiores quando se trata de lotes especiais ou gourmets. Nos seis primeiros meses de 2020, o preço médio da saca foi de US$ 130,76.

Segundo o relatório do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), no primeiro semestre deste ano o Brasil exportou 19,6 milhões de sacas do produto (79% de café do tipo arábica). No mesmo período de 2019 foram 20,4 milhões de sacas. Já quando se trata de receita, o dólar adoçou o café dos exportadores brasileiros neste semestre. A receita cambial dos seis primeiros meses de 2019 ficou em R$ 9,8 bilhões, enquanto no mesmo período deste ano, mesmo com menor volume exportado, a receita foi de R$ 12,6 bilhões. Para efeito de comparação, em 1º de julho de 2019 o dólar valia R$ 3,81 e, na mesma data em 2020, R$ 5,36.

“Chegamos a patamares de preços nominais que não tínhamos há cinco anos”, observa o coordenador de política agrícola da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Maciel Silva.

Efeito amargo

A movimentação nos portos não reflete a realidade do chamado food service (setor que compreende cafeterias, restaurantes e lanchonetes), nem do varejo. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Ricardo de Sousa Silveira, logo após o início da pandemia, muitos consumidores buscaram armazenar o produto com receio de um desabastecimento. “Essa situação gerou um aumento pontual de 35% nas vendas em março, que seguiu com queda em abril”, ressalta. Na opinião do executivo, as indústrias de café não foram tão afetadas porque tem seus maiores canais de distribuição no varejo tradicional (supermercados) que se mantiveram abertos durante a pandemia. “Mas, o consumo doméstico não irá compensar totalmente a ausência do consumo fora do lar, que foi muito impactado com o isolamento social”, aponta.

A empresária Georgia Franco de Souza, proprietária da cafeteria Lucca Cafés, de Curitiba, sentiu os solavancos econômicos deste período. “O que nos salvou foi a diferenciação dos cafés que nós vendemos”, conta, referindo-se aos microlotes exclusivos com alta pontuação que ela mesmo torra e comercializa.

A cafeteria de Georgia passou por diversos períodos de fechamento total e, até o encerramento desta edição, atendia com 30% da capacidade de ocupação. Para driblar a restrição da comercialização da bebida preparada, a Lucca implantou um serviço de entrega com motoboy. “O saldo [do período de pandemia] foi extremamente negativo, mas teríamos ido a colapso se não fossem as vendas do café para consumo em casa”, afirma a empresária. Para complementar, passou a entregar também pão com fermentação natural. Outras estratégias, como vendas com entrega via correio e clube de assinantes de café já faziam parte da rotina da Lucca.

Produção se ajusta para proteger saúde dos trabalhadores

Outro reflexo da pandemia ocorreu no momento da colheita do café. Historicamente, a atividade demanda muita mão de obra, sendo inclusive um gargalo que vem levando a atividade para o caminho da mecanização. Em grandes regiões produtoras, migrações de trabalhadores ocorrem durante esses períodos. Todo este processo, desde o transporte até a disposição nos alojamentos e a própria atuação nos cafezais, precisou passar por ajustes para atender aos protocolos de saúde de enfrentamento ao novo coronavírus.

No caso do produtor Ricardo Batista, de Congonhinhas, a mão de obra utilizada na colheita resume-se a três famílias, cada uma com três integrantes, de um distrito próximo. Como não é necessário passar a noite na empreitada, foi preciso apenas ajustar a questão do transporte. Ao invés do utilizar o ônibus, o cafeicultor acertou um valor para a gasolina e cada família se deslocou em um automóvel. “Na lavoura também, pedi para eles respeitarem o distanciamento e deu tudo certo”, relata.

De acordo com o coordenador de produção agrícola da CNA, Maciel Silva, casos semelhantes ocorreram em todo Brasil, mas não chegaram a causar problemas devido à capacidade de planejamento dos cafeicultores. “O boom da pandemia foi antes do início da colheita, então os produtores tiveram tempo para se adequar e, de modo geral, cumprir os protocolos”, afirma. 

Concurso Café Qualidade Paraná

Uma das grandes vitrines do café paranaense, o concurso Café Qualidade Paraná está com inscrições abertas para sua 18ª edição. A iniciativa, que conta com a parceria do Sistema FAEP/SENAR-PR, tem como objetivo incentivar a produção de cafés de qualidade no Estado.

A inscrição é gratuita e pode ser feita até o dia 2 de outubro nas unidades municipais do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná – Emater/Iapar. Fonte Faep.

O regulamento pode ser acessado no link www.cafequalidadeparana.com.br.

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