
O economista Vinícius Brizola de Oliveira, atual Secretário da Fazenda do município de Piraí do Sul, nos Campos Gerais, conhece o potencial econômico da região. Já trabalhou por mais de uma década no setor do agronegócio na área de finanças e, hoje, no setor público, complementa sua visão sobre as necessidades da região.
Em entrevista Vinícius, destaca que o agronegócio tem um impacto positivo na economia do Paraná e do Brasil, com o PIB do agronegócio crescendo mais que o PIB nacional. No Paraná, a produção agrícola, agropecuária e agroindústria representam mais de 1/3 do PIB do estado, enquanto no Brasil, o agronegócio representa cerca de 25% do total de bens produzidos. A região dos Campos Gerais no Paraná é importante no agronegócio devido a sua produção agrícola e animal, incluindo a avicultura. Vários municípios da região têm um VBP acima de R$ 1 bilhão. A região dos Campos Gerais também é conhecida por ser uma das regiões pioneiras no plantio direto e possui solo de boa qualidade, clima favorável e aplicação de alta tecnologia. A economia do Paraná se compara bem à economia brasileira em relação ao agronegócio, sendo o terceiro maior produtor de soja e líder na produção de feijão, trigo e proteína animal.
Acompanhe a entrevista na íntegra.
Minuto Rural - Qual é o impacto do agronegócio na economia do Paraná e do Brasil?
Economista Vinícius - O agronegócio vem se destacando nas últimas décadas e, especialmente, nos últimos anos devido ao vertiginoso crescimento e ao substancial aumento da produtividade. Proporcionalmente, o PIB (Produto Interno Bruto) do agronegócio vem crescendo bem mais do que o PIB nacional. Só como ilustração, o crescimento do PIB do agronegócio em 2021 foi de 8,36% enquanto o PIB do Brasil teve uma variação positiva de 4,6%. No Paraná, a produção agrícola somada à agropecuária e também à agroindústria representa mais de 1/3 do PIB do Estado. Já no Brasil, todos os setores que compõem o agronegócio representam aproximadamente 25% do total de bens produzidos no Brasil.
Minuto Rural - Como o agronegócio da região dos Campos Gerais contribui para a economia local e nacional?
Economista Vinícius - O Estado do Paraná destaca-se não somente na produção agrícola como também na produção de proteína animal com destaque para a avicultura. Em 2021, o Paraná produziu mais de 4,87 bilhões de toneladas, sendo simplesmente o líder nacional em proteína animal. A região dos Campos Gerais é uma das mais importantes do agronegócio paranaense e vários municípios da região possuem mais de R$ 1 bilhão de VBP (Valor Bruto de Produção) entre eles Castro, Tibagi, Carambeí, Piraí do Sul, Palmeira, Arapoti, Prudentópolis e Ponta Grossa.
Minuto Rural - Qual é o papel da agricultura na região dos Campos Gerais e como isso afeta a economia local, do Paraná e nacional?
Economista Vinícius - A região dos Campos Gerais é pioneira no plantio direto, método que transformou a história da produção agrícola no Brasil. Soma-se a isso, a qualidade do solo, o clima e a aplicação de alta tecnologia fazendo com que a região seja uma das mais importantes no Brasil na agricultura. Soja, milho, trigo, feijão e leite são os destaques. Em VBP, os municípios da região cresceram 41% no último levantamento dado superior ao crescimento estadual. Outras culturas também são importantes na região, como a cevada e a silvicultura.
“O agronegócio é um setor que caminha sozinho e pouco depende de políticas governamentais.”
Minuto Rural - Como a economia do Paraná se compara com a economia brasileira em relação ao agronegócio?
Economista Vinícius - O agronegócio paranaense é um dos mais importantes do Brasil. O estado é o terceiro maior produtor de soja do Brasil e, na safra 2020/2021, produziu 19,88 milhões de toneladas em 5,62 milhões de hectares plantados. Manteve-se na segunda colocação da produção nacional de milho e a estimativa é que a produção paranaense atinja 16 milhões de toneladas na safra 2021/2022, representando uma ótima recuperação da agricultura do milho no estado. A área cultivada atual está estimada em 3,08 milhões de hectares, um pequeno aumento, pois foram 2,88 milhões de hectares no período anterior. Em 2020, a agricultura paranaense de trigo foi a grande líder nacional, colhendo 3,09 milhões de toneladas, 49,5% da produção brasileira, que fechou em 6,23 milhões de toneladas naquele ano. O Paraná liderou também a produção brasileira de feijão, colhendo 534,0 mil toneladas, um pouco a mais que Minas Gerais, que fechou a produção em 529,3 mil toneladas. O Brasil produziu, no total, 3,25 milhões de toneladas de feijão nesse período. Na agricultura de cevada, o Paraná é um líder incontestável. Em 2020, colheu 270,9 mil toneladas, 72,35% da produção nacional. Para 2021, a estimativa é que a produção paranaense fique em torno das 298 mil de toneladas. Outro cultivo importante no estado é a cana-de-açúcar, na safra 2020/2021 o Paraná colheu 24,1 milhões de toneladas, posicionando-se como o quinto maior produtor nacional. A pecuária do Paraná também tem relevância no cenário brasileiro, principalmente pela produção de carne de aves. Em 2020, o estado contava com o maior rebanho de galináceos do Brasil, com 395 milhões de cabeças, 26,7 % do contingente nacional. Em relação ao rebanho bovino, o Paraná não é um dos grandes nomes da pecuária nacional, porém, conta com um expressivo rebanho de 8,5 milhões de animais, já na pecuária suína, o estado tem o segundo maior rebanho, 6,9 milhões de animais, ficando atrás somente de Santa Catarina, que possui 7,8 milhões de cabeças suínas em seu território.
Esses são dados que demonstram não só a capacidade produtiva do Paraná com a sua importância econômica para o país.
Minuto Rural - Como as políticas governamentais afetam o desenvolvimento do agronegócio na região dos Campos Gerais?
Economista Vinícius - O agronegócio é um setor que caminha sozinho e pouco depende de políticas governamentais. Mesmo assim, o setor público pode contribuir - e muito - caso não atrapalhe seja com políticas ambientais rígidas demais, seja com falta de capacidade em oferecer uma infraestrutura mais adequada ao escoamento da produção. A aplicação de recursos públicos na área rural deve sempre ser proporcional à qualidade produtiva da região.
Aumentar o apoio ao pequeno produtor pode ser uma contribuição importante que o setor público pode oferecer. Ajudar as pequenas associações a se estruturarem para que consigam participar do mercado talvez seja o caminho para fortalecer ainda mais o agronegócio da região.
Minuto Rural - Quais são as principais tendências e desafios do agronegócio na região dos Campos Gerais e como eles afetam a economia local e nacional?
Economista Vinícius - A região dos Campos Gerais é privilegiada não só pelos fatores que falei anteriormente como tipo de solo e clima, mas, principalmente, pela capacidade de se organizar como cadeia de produção. Um dos principais desafios enfrentados por todos os setores produtivos e no agronegócio não é diferente, são os custos de produção. Nos últimos dois anos, esses custos aumentaram exponencialmente. Com as margens de lucro mais apertadas e, em alguns casos, até negativa, somente os grandes produtores conseguem sobreviver no longo prazo. E aí que vem a vantagem da região que falei no início. Os Campos Gerais são exemplos quando o assunto é cooperativismo. Algumas das mais importantes cooperativas de produção do Brasil estão na região dos Campos Gerais. As cooperativas são essenciais para os pequenos e médios produtores, pois é através delas é que conseguem escala para o seu negócio e podem competir com os grandes produtores. Mais de 50% do total produzido pelo agronegócio brasileiro vem através das cooperativas. É realmente um número expressivo. Além das cooperativas de produção há também as cooperativas de crédito, que também são agentes econômicos muito importantes e que redemocratizaram o crédito nas últimas décadas e a maioria delas estão presentes na região desempenhando um papel fundamental de apoio não somente aos produtores rurais, mas ajudando a alavancar toda a economia da região.
Minuto Rural - Quais as perspectivas para a economia brasileira e quais os reflexos você acredita que isso possa gerar na região?
Economista Vinícius - O Brasil enfrenta diversos problemas na economia há algum tempo e provavelmente não serão resolvidos no curto prazo. Existem problemas estruturais que devem ser enfrentados como, por exemplo, a reforma tributária. O complexo sistema tributário brasileiro talvez seja a maior barreira ao desenvolvimento do Brasil. Uma simplificação nessa área traria segurança jurídica e tornaria mais clara a composição dos custos para todos os setores. Além disso, reduziria a guerra fiscal que destrói a eficiência econômica do país e diminuiria a desigualdade entre as regiões brasileiras.
Enquanto isso não acontece, cuidar da responsabilidade fiscal, manter a inflação dentro da meta e criar novos parceiros comerciais certamente ajudaria todos os setores.
A China é o maior parceiro comercial do Brasil, mas ainda se exporta pouco para Índia e Indonésia, por exemplo, países com enorme potencial de demanda no que diz respeito a produtos alimentares.
O Paraná é um dos principais exportadores do país e muito dessas exportações saem da região dos Campos Gerais através das cooperativas e do Porto de Paranaguá, o segundo maior do país e o maior porto exportador de produtos agrícolas do Brasil.
Considerando a capacidade produtiva da região e sua tradição na agricultura e agropecuária, acredito que o ano de 2023 tende a ser muito bom apesar da volatilidade gerada pelas incertezas da agenda econômica que uma mudança no governo federal apresenta.