Agricultura MILHO - ENFEZAMENTO
Enfezamento do milho desafia produtores e pesquisa
O IDR-Paraná começou as pesquisas sobre enfezamento na safra de 2020, quando foi realizada uma primeira coleta de plantas adultas e recém-semeadas, cigarrinhas e tigueras nas zonas produtoras do cereal.
28/07/2022 14h10
Por: Redação Fonte: IDR-PARANÁ
O problema ganhou proporção nos últimos anos e, na presente safra, chegou a causar perdas de até 40% em algumas lavouras da região Noroeste e Oeste.

“São muitos os estudos necessários, que mal iniciamos, mas já é possível dizer com segurança que o enfezamento atinge as duas safras de milho e está presente em todas as regiões produtoras”. A breve afirmação da bióloga Michele Regina Lopes da Silva dá ideia do tamanho do problema para a produção do cereal no Paraná.

A pesquisadora do IDR-Paraná (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná – Iapar-Emater) conta que a doença foi detectada no Oeste do Estado há cerca de 20 anos. “Eram constatações esporádicas, muito localizadas, e não constituía um problema sanitário para a cultura”, explica Silva.

O problema ganhou proporção nos últimos anos e, na presente safra, chegou a causar perdas de até 40% em algumas lavouras da região Noroeste e Oeste. 

O IDR-Paraná começou as pesquisas sobre enfezamento na safra de 2020, quando foi realizada uma primeira coleta de plantas adultas e recém-semeadas, cigarrinhas e tigueras nas zonas produtoras do cereal. “Ali, já confirmamos a presença do vírus da risca e das bactérias fitoplasma e espiroplasma, causadores da doença”, conta a pesquisadora.

Desde 2022, o IDR-Paraná realiza a avaliação dos dez híbridos mais cultivados no Paraná, com ensaios em Assaí, Campo Mourão, Cascavel, Floresta, Londrina e Sete Lagoas (MG). “O objetivo é determinar o nível de resistência e de suscetibilidade desses materiais”, aponta a pesquisadora. Esse trabalho é conduzido em parceria com a Embrapa Milho e Sorgo e as cooperativas Coamo, Cocamar, Copacol e Integrada.

 

ENFEZAMENTO — Além do vírus da risca e das bactérias fitoplasma e espiroplasma (também conhecidas como molicutes), o complexo do enfezamento envolve a cigarrinha-do-milho, inseto que se contamina ao sugar a seiva de plantas infectadas e faz a transmissão da doença quando se alimenta em plantas sadias. 

A cigarrinha pode voar num raio de 30 quilômetros, mas alcança distâncias ainda maiores, pois também é transportada por correntes de ar.

Os sintomas do enfezamento aparecem na fase reprodutiva da planta, na forma de manchas avermelhadas ou amareladas nas bordas das folhas, manchas em formato de riscos (que revela a presença do vírus) e menor desenvolvimento das plantas. Por fim, há o comprometimento da produção pela deformação ou malformação das espigas.

A infecção ocorre no período que vai da emergência das plantas até cerca de 35 dias, embora os sintomas se manifestem com a planta já em fase de pendoamento e formação de grãos.

 

CONTROLE — A principal estratégia para manejar a doença deverá ser a rotação de culturas conjugada com a resistência genética dos híbridos e o correto controle da população de cigarrinhas, aponta Michele Silva.

Na implantação da lavoura, o produtor deve fazer o tratamento de sementes e realizar vistorias frequentes até cerca de 35 dias após a emergência das plantas para avaliar a presença da cigarrinha e a necessidade de fazer seu controle. “A recomendação é fazer uma aplicação de inseticida químico e outra de produto biológico, a base de boveria, tricoderma ou isaria”, recomenda Silva.

A pesquisadora aponta ainda a necessidade de fazer a colheita com o máximo de cuidado, a fim de não deixar plantas guaxas no terreno e interromper o ciclo do vetor e dos patógenos. Elas servem de reservatório do vetor e da doença para a próxima lavoura.

Também aconselha a semeadura simultânea em uma mesma região para evitar a chamada “ponte verde”, que é a existência de lavouras em diferentes etapas de desenvolvimento, o que facilita o “trabalho” de migração das cigarrinhas em busca de alimento e realimenta do ciclo de contaminação dos cultivos. 

“Muito mais que controle químico, o enfezamento exige uma abordagem de manejo integrado das lavouras, para além da divisa das propriedades”, enfatiza Michele Silva.