Floresta PINUS
Pinus chega ao Brasil como experimento e 120 anos depois se estabelece como principal matéria-prima para diversos produtos
Em 1906, o naturalista sueco Alberto Löfgren registrou a presença de 16 espécies de Pinus em São Paulo e, de lá para cá, gênero se torna referência em produtividade e uma das principais bases da silvicultura brasileira
23/10/2026 14h47
Por: Redação
Legenda: Primeiros experimentos foram realizados pelo naturalista sueco Alberto Lögren em 1906 (Crédito: Zig Koch)

Em 2026, o Brasil completa 120 anos de uma história que começou com experimentos de adaptação de espécies exóticas e se transformou em uma das principais cadeias produtivas florestais do país e do mundo. O marco histórico está associado ao trabalho do naturalista sueco Alberto Löfgren, que, em 1906, publicou a obra “Notas sobre as plantas exóticas introduzidas no Estado de São Paulo”.

O estudo registrava 16 espécies de Pinus presentes em experimentos e se tornou uma das primeiras referências documentais da cultura do Pinus no país. 

Naturalista nascido na Suécia, Löfgren veio para o Brasil no século XIX e atuou na Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo. Também esteve à frente do Horto Botânico da Cantareira, estrutura que posteriormente daria origem ao atual Instituto Florestal. Seu trabalho estava ligado não apenas à identificação de espécies, mas também à pesquisa sobre sua adaptação às condições brasileiras.

Experimentos vieram da América do Norte e América Central

O gênero Pinus não possui uma única origem geográfica. As espécies utilizadas nos experimentos brasileiros vieram principalmente da América do Norte e da América Central, além de outras regiões posteriormente incorporadas aos programas de pesquisa. O Instituto Florestal registra que os estudos brasileiros envolveram espécies provenientes dessas regiões e, ao longo do tempo, diferentes procedências foram avaliadas quanto à adaptação climática, crescimento e qualidade da madeira. A própria pesquisa florestal brasileira posteriormente passou a testar materiais provenientes dos Estados Unidos, México, América Central, Caribe e Ásia.

O uso econômico em larga escala seria construído décadas depois, a partir de programas de pesquisa e da identificação das espécies mais adaptadas às condições brasileiras.

A transformação começou quando a experimentação deixou de observar apenas a adaptação das árvores e passou a buscar espécies adequadas à produção de madeira. A necessidade era concreta: a exploração histórica das florestas nativas havia reduzido a disponibilidade de espécies utilizadas pela indústria, entre elas a Araucaria angustifolia, o pinheiro-brasileiro.

O Instituto Florestal aponta que uma das razões para a introdução do Pinus foi justamente a necessidade de produzir madeira para abastecimento industrial, processamento mecânico, madeira serrada e laminada, painéis e celulose e papel. 

A partir de 1936, os estudos ganharam novo impulso em São Paulo, com a introdução de sementes de Pinus elliottii e Pinus taeda. Mais tarde, essas espécies se destacaram no Sul e no Sudeste pela adaptação, crescimento e características da madeira. 

Foi, portanto, um processo gradual. Ao longo das décadas, pesquisadores passaram a avaliar solo, clima, regime de chuvas, resistência a pragas, produtividade, qualidade da madeira e diferentes materiais genéticos. O resultado foi a seleção de espécies e procedências mais adequadas a cada região.

Da experiência científica à expansão no Sul

A consolidação do Pinus como cultura florestal comercial ocorreu principalmente a partir da segunda metade do século XX. Na década de 1960, extensas áreas passaram a ser plantadas com Pinus taeda e Pinus elliottii nas regiões Sul e Sudeste, período em que políticas de incentivo também contribuíram para a expansão das florestas plantadas.

O Sul brasileiro encontrou condições particularmente favoráveis para a atividade. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul concentram atualmente cerca de 89% da área brasileira plantada com Pinus.

O Paraná ocupa posição de destaque nessa trajetória. De acordo com a Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (APRE Florestas), o Estado possui a terceira maior área plantada de Pinus do Brasil, com 684.420 hectares, correspondentes a cerca de 59% de sua área total de florestas plantadas.

Essa posição é resultado de uma combinação entre condições de clima e solo, melhoramento genético, manejo e desenvolvimento industrial. Fabio Brun, presidente da APRE Florestas, destaca que a trajetória de 120 anos foi construída pela parceria entre empresas, produtores rurais, universidades e instituições de pesquisa.

A relação entre produção florestal e conservação ambiental também está envolvida nos 120 anos do Pinus. A pesquisadora Yeda Malheiros de Oliveira aponta que as florestas naturais e as florestas plantadas são complementares, com características e funções diferentes.  As florestas nativas estão associadas principalmente à conservação ambiental, à biodiversidade e à regulação do clima. As florestas plantadas, por sua vez, são destinadas à produção de matérias-primas renováveis.

“As florestas nativas ou florestas naturais e as florestas plantadas, dessa forma, se complementam em perfeita sinergia e grande harmonia”, afirma a pesquisadora.

Segundo Yeda, as florestas plantadas contribuem para evitar que áreas de vegetação nativa sejam utilizadas para a produção de materiais destinados à indústria. Ela também destaca que os plantios podem formar mosaicos com áreas naturais, contribuindo para a proteção de fragmentos florestais.

Uma árvore, múltiplos produtos

A trajetória do Pinus também é a história da transformação de uma matéria-prima em uma cadeia industrial diversificada. Atualmente, a madeira pode ser destinada à produção de serrados, compensados, painéis, móveis, portas, janelas, molduras, papel e celulose, embalagens e produtos utilizados na construção civil.

O aproveitamento não termina na madeira de maior diâmetro. Diferentes partes da árvore podem seguir para diferentes processos industriais, enquanto resíduos e materiais de menor dimensão podem ser utilizados para geração de energia.

A cadeia também avançou para produtos de maior complexidade tecnológica. Resinas de Pinus são utilizadas na produção de insumos para tintas, vernizes, colas e essências. Pesquisas com lignina, celulose microfibrilada e nanocelulose ampliam as possibilidades de utilização da espécie em novos materiais e aplicações industriais, inclusive na indústria de medicamentos, cosméticos e alimentos.

120 anos de pesquisa e transformação

Ao olhar para essa trajetória, 1906 representa o início documentado de uma longa jornada científica. O resultado pode ser medido também pela eficiência: a produtividade média dos plantios brasileiros de Pinus chega a 31,1 m³ por hectare ao ano.
Essa evolução ajuda a explicar por que o Pinus ocupa hoje uma posição tão diferente daquela observada no início do século XX. A árvore, que começou sendo testada em diferentes ambientes, passou a integrar uma cadeia diversificada.

“Os 120 anos não contam apenas a história de uma espécie introduzida no Brasil. Contam a evolução de um conhecimento construído ao longo de gerações. A trajetória do Pinus foi marcada por experimentação, adaptação, ciência e transformação industrial. Hoje, seus produtos estão presentes em diferentes dimensões da vida cotidiana e a cadeia formada em torno da espécie tornou-se parte da história econômica e florestal do país”, diz o presidente da APRE Florestas, Fabio Brun.