Na segunda-feira, tive a responsabilidade de representar o Brasil no plenário do GPC — a Global Pulse Confederation, o mais importante fórum mundial do setor de pulses. Estar diante de líderes globais, compradores, exportadores, pesquisadores e representantes de dezenas de países não foi apenas uma oportunidade institucional. Foi um sinal claro de que o Brasil passou a ocupar um espaço estratégico no debate internacional sobre segurança alimentar.
O verdadeiro desafio ali não era apresentar números, exportações recordes ou novas cultivares. Era posicionar o Brasil como parte da solução global para a estabilidade, a coordenação de mercado e o fortalecimento do consumo de comida de verdade.
O mundo começa a perceber algo que o IBRAFE defende há muitos anos: produzir mais, isoladamente, não resolve o problema.
O setor global de pulses ainda convive com um ciclo extremamente ineficiente. Em um ano, os produtores vendem abaixo do custo. No seguinte, os compradores enfrentam preços recordes e escassez. Essa volatilidade prejudica produtores, indústria, varejo e consumidores.
Não faz sentido tratar pulses como commodities comuns quando falamos de alimentos estratégicos para a saúde pública e a segurança alimentar.
O Brasil chega a este debate em um patamar muito diferente do passado. Hoje temos mais de 20 cultivares exportáveis, desenvolvidas ao longo de décadas de pesquisa por instituições como a Embrapa e o Instituto Agronômico de Campinas. O trabalho de pesquisadores como os doutores Alisson Chiorato e Sérgio Carbonell ajudou a transformar o país em um fornecedor cada vez mais diversificado, eficiente e competitivo.
Também avançamos em áreas que poucos imaginavam há alguns anos: rastreabilidade, agricultura tropical regenerativa, expansão do uso de biológicos, gestão eficiente da água, proteínas concentradas de Feijão e até produtos instantâneos, prontos para o consumo em poucos minutos.
E agora uma nova fronteira tecnológica ganha espaço na agricultura brasileira: os nanofertilizantes — talvez um dos movimentos mais importantes para a sustentabilidade agrícola dos próximos anos.
O Brasil se tornou uma potência agrícola com enorme eficiência produtiva, mas ainda depende fortemente da importação de fertilizantes — e boa parte desses nutrientes se perde por volatilização, lixiviação ou baixa absorção pelas plantas.
Os nanofertilizantes atacam justamente esse desperdício: aumentam a eficiência de absorção, reduzem perdas e permitem aplicar volumes menores. Na prática, é produzir mais aproveitando melhor os recursos do solo. Isso muda o custo de produção — e, mais do que isso, muda a lógica da sustentabilidade.
Enquanto parte do mundo discute proteínas vegetais altamente processadas, o Brasil tem a oportunidade de construir algo diferente: proteínas vegetais baseadas em comida de verdade.
Hoje já existem cultivares de Feijão que alcançam até 30% de proteína. O país avança também em proteínas concentradas de Feijão e em produtos instantâneos voltados ao consumidor urbano moderno, que busca conveniência sem abrir mão da qualidade alimentar.
Mas talvez o ponto mais importante seja outro. O mundo enfrenta um desafio silencioso: como manter e ampliar o consumo de pulses entre as novas gerações.
Não basta produzir. Não basta exportar. É preciso garantir que crianças, jovens e consumidores urbanos continuem enxergando Feijão, lentilhas, ervilhas e outros pulses como alimentos modernos, saudáveis, acessíveis e desejáveis.
Por isso o Brasil também começou a estudar iniciativas globais de aumento de consumo, ligadas à alimentação escolar, à educação alimentar e à conveniência. O Viva Feijão nasce nesse contexto — não apenas como campanha de consumo, mas como uma tentativa de reposicionar o Feijão dentro de uma discussão maior: saúde pública, comida de verdade e estabilidade de mercado
No fim do dia, produtores, compradores, exportadores, pesquisadores e consumidores dependem da mesma coisa: mercados mais estáveis, demanda forte e previsibilidade.
Talvez este seja o momento em que o Brasil precise deixar de ser apenas um fornecedor de pulses e passar a assumir também o papel de articulador global do setor. Isso traz uma enorme responsabilidade. Mas também uma oportunidade histórica
| Por: Marcelo Eduardo Lüders - Presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (IBRAFE) |