O que muda nos impostos, quem será impactado, como essas alterações chegam ao campo e por que o produtor rural precisa se preparar desde já. Essas foram algumas das principais questões abordadas durante a palestra gratuita sobre a Reforma Tributária, realizada na noite do dia 28 de janeiro, na sede da Eco S 360, em Ponta Grossa (PR).
O encontro reuniu produtores rurais, empresários do agronegócio, técnicos e profissionais ligados à agricultura familiar, com o objetivo de traduzir um dos temas mais complexos do cenário econômico atual para a realidade prática do campo. A palestra foi conduzida por Ricardo Denck, contador, advogado tributarista e CEO da Denck Contabilidade Consultiva, e promovida pelo Eco S 360, um arranjo produtivo voltado à inteligência aplicada ao agronegócio e à empresarização da agricultura familiar.
Em um momento de profundas transformações no sistema de arrecadação de impostos no Brasil, a proposta do evento foi levar informação acessível, objetiva e aplicável, mostrando que a reforma tributária não é um assunto distante do produtor rural, mas algo que impacta diretamente o bolso, a gestão da propriedade e a sustentabilidade do negócio no médio e longo prazo.
Durante a palestra, Ricardo Denck explicou de forma didática como a reforma altera a lógica de cobrança dos impostos, substituindo tributos atuais pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), além de reforçar a necessidade de maior organização financeira e controle da atividade rural.
Segundo o especialista, todos serão impactados, independentemente do porte da propriedade. “Os produtores rurais, assim como todos nós enquanto consumidores, seremos impactados diretamente pela reforma tributária. E isso exige uma organização maior, um cuidado maior com as contas, com as compras e com a forma de gerir o negócio”, afirmou Denck.
Ele destacou que até mesmo o pequeno produtor, que muitas vezes atua de forma mais informal ou com controles simplificados, precisará mudar sua postura. “Não será mais simplesmente definir um preço ou esperar o mercado definir. Se ele não entender seus custos e seus impostos, pode deixar muito dinheiro na mesa ou até ter prejuízo”, alertou.
Um dos pontos centrais da fala de Denck foi a relação entre a reforma tributária e o avanço da digitalização no campo. Ele comparou o momento atual com o período da pandemia, quando os produtores precisaram se adaptar rapidamente às tecnologias digitais.
“Assim como na era da Covid todos tivemos que aprender a lidar com o online, agora o produtor rural — do menor ao maior — terá que se adaptar às tecnologias, à emissão de notas fiscais eletrônicas, ao controle de compras e de insumos”, explicou.
A Nota Fiscal Eletrônica do Produtor Rural, que já é uma realidade, tende a ganhar ainda mais importância com a reforma. De acordo com Denck, erros na emissão podem gerar retenções indevidas, pagamento a mais de impostos ou até problemas com o fisco. “A própria nota fiscal vai trazer os insumos, e muitas vezes a cooperativa ou a empresa que compra é quem faz a retenção do imposto. Se o produtor informar algo incorretamente, pode sofrer penalizações”, ressaltou.
Ele reforçou ainda a importância da correta classificação tributária e do NCM dos produtos.
“O produtor precisa saber exatamente o que vende, a origem do produto e a classificação correta. Os sistemas nem sempre estão parametrizados corretamente, então ele precisa buscar conhecimento ou apoio de um contador ou tributarista”, orientou.
Outro alerta importante feito durante a palestra foi direcionado aos produtores com faturamento próximo ao limite de R$ 3,6 milhões por ano. Denck explicou que, com a nova lógica tributária, até produtores que antes não se consideravam contribuintes podem ser enquadrados dessa forma.
“Muitas vezes essa exigência vem do próprio mercado. Cooperativas e empresas compradoras podem exigir que o produtor se torne contribuinte para aproveitar créditos tributários. Se ele não estiver preparado, pode perder competitividade”, explicou.
Para o especialista, o caminho passa necessariamente pelo planejamento tributário e pela busca de orientação profissional qualificada. Segundo ele, embora as mudanças possam parecer mais burocráticas em um primeiro momento, elas são determinantes para a saúde financeira do negócio rural. “É esse cuidado que garante lucratividade, permite ampliar a produção e assegura caixa para investir. Quem começa a se planejar agora, sem dúvida, sai na frente”, afirmou.
Ricardo Denck reforçou ainda que a reforma tributária não tem caráter punitivo para quem atua dentro da legalidade. “Ela vem para inibir a sonegação e fortalecer quem faz tudo certo. Quando o produtor entende como o sistema funciona, ele se torna mais preparado para o futuro”, concluiu.
Além do conteúdo técnico, o evento também destacou a importância da gestão e da organização da propriedade rural, tema defendido pelos representantes do Eco S 360.
O engenheiro agrônomo Luiz Francisco Araújo da Costa Vaz, do Ecoperformance e da Vasco Consultoria, explicou que o movimento nasceu com foco no fortalecimento da agricultura familiar e das pequenas propriedades.
“O Eco S 360 foi criado para trazer estrutura, informação e desenvolvimento digital para o pequeno produtor, para que ele consiga fazer gestão dentro da propriedade”, afirmou.
Segundo Luiz, discutir tributos é essencial porque muitos produtores ainda não conhecem seus custos reais. “Quando o produtor entende quanto custa produzir, ele consegue precificar melhor, saber sua margem de lucro e tomar decisões mais seguras”, explicou.
Ele também comparou a reforma tributária ao impacto da pandemia no campo. “Assim como a pandemia acelerou a informatização, a reforma tributária vai exigir que o produtor entenda a parte fiscal. Quem não entender isso vai ter problemas de precificação e de competitividade”, alertou.
Já o engenheiro agrônomo Estevão Ferreira Brunelli, da Eco Compost e também representante do Eco S 360, reforçou que a palestra teve um papel prático e estratégico para os produtores.
“Ter um especialista que estuda a reforma há tempos e que traz isso para a prática é fundamental para que o produtor venda melhor, tenha mais lucro e pague corretamente seus tributos”, destacou.
Ele também ressaltou a importância do ecossistema criado pelo Eco S 360. “O hub é um espaço onde o produtor tem acesso a informações, serviços e apoio para melhorar sua gestão e fortalecer o negócio”, explicou.
Ao longo do ano, o Eco S 360 prevê novas palestras e ações voltadas à gestão, comercialização, marketing, editais e temas ligados à sustentabilidade e às ODSs (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), reforçando o papel estratégico da agricultura familiar para a economia e a segurança alimentar do país.
Ao final do encontro, a principal mensagem deixada aos participantes foi clara: entender a reforma tributária não é mais opcional. Em um cenário de fiscalização mais rigorosa e de integração dos sistemas, quem se antecipa, organiza sua gestão e busca informação tende a reduzir riscos e proteger sua renda.
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