Blogs DEFENSIVOS
É o fim do uso de defensivos na agricultura?
Uma visita técnica à UEPG mostrou que o debate sobre defensivos agrícolas está menos ligado à ideologia e mais à eficiência, com pesquisas apontando que tecnologia de aplicação, manejo do solo e nanotecnologia podem reduzir perdas, custos e riscos na produção.
28/01/2026 11h17
Por: Redação Fonte: Luiz Francisco Araujo da Costa Vaz*
É o fim do uso de defensivos na agricultura?

Durante muito tempo eu tratei essa ideia como exagero. Na minha cabeça, reduzir defensivos “de verdade” em culturas comerciais parecia conversa bonita, mais ideológica do que técnica. Até a semana passada.

Eu estive numa visita à UEPG, e a conversa começou onde todo agrônomo se sente em casa: fertilidade do solo, uso e ocupação, diagnóstico de ambiente, eficiência de adubação. Só que, ao avançar para o que eles vêm testando em tecnologias de aplicação e nanoaplicação, eu entendi algo simples — e incômodo: o debate não é “ser contra ou a favor” de defensivos. O debate é eficiência.

E eficiência, no agro, é o que separa quem sobrevive de quem vira estatística.

Não é ideologia. É tecnologia. E é conta.

O produtor está espremido por todo lado: custo de insumo, risco climático, exigências, taxas, impostos, logística, mão de obra, crédito caro. No meio disso, ainda existe um ruído gigante feito de desinformação e “verdades prontas” — que não ajudam ninguém a produzir alimento.

O que eu vi (e o que a ciência vem acumulando) aponta para um caminho mais racional:

Quando você joga insumo fora por volatilização, deriva, lixiviação, fixação ou aplicação mal feita, não é só custo: é risco ambiental, risco de imagem, risco de resultado.

A tecnologia entra exatamente aqui: fazer o insumo trabalhar mais e “escapar” menos.

“Sanidade” começa no solo, mas se confirma na planta

A visita reforçou uma ideia que muita gente repete, mas pouca gente trata como estratégia: adubação não é só para produzir mais. É para produzir com planta mais resiliente.

Planta bem nutrida e com raiz funcionando:

Isso não elimina a necessidade de defensivos. Mas muda o patamar: você sai do modo reação e entra no modo controle.

Onde a nanotecnologia muda o jogo

“Nanotecnologia” virou palavra da moda. Só que, quando você tira a propaganda e olha o princípio, a lógica é objetiva: entregar o ingrediente ativo com mais eficiência.

Em linhas gerais, nanoformulações e sistemas de liberação controlada podem:

A própria Embrapa tem divulgado projetos e tecnologias voltadas à liberação lenta/controle de nutrientes usando nanotecnologia, justamente para reduzir perdas e melhorar a eficiência do fertilizante.

Também há avanço em processos de nanocompósitos com liberação controlada para diferentes compostos de uso agropecuário — a base científica é a mesma: controle da entrega e do tempo de ação.

E isso não fica só na teoria: no repositório da UEPG há trabalho avaliando associação de inseticida com nanotecnologia (OCC®) buscando performance residual e eficiência, inclusive analisando cenário de redução de dose em manejo de praga.

Perceba: não é “não usar defensivo”. É usar melhor, com mais resultado por aplicação.

Tecnologia de aplicação: o elefante na sala que ninguém quer encarar

Aqui vai uma verdade dura: em muita propriedade, o maior desperdício não está no produto — está na aplicação.

Aí o produtor conclui que “o produto não presta” e aumenta dose ou número de aplicações. Isso é custo e risco, não estratégia.

Quando você combina tecnologia de aplicação + formulações mais eficientes + manejo nutricional, você abre a possibilidade real de:

Um bom resumo técnico de como a nanotecnologia influencia o agro passa justamente por esses pontos: liberação controlada, melhor adesão e maior eficiência do ingrediente ativo, com potencial de reduzir perdas e otimizar aplicações.

Então… é o fim dos defensivos?

Não. E quem promete isso está vendendo ilusão.

O que está acontecendo — e aqui está o ponto — é o início de uma agricultura mais técnica, onde defensivo deixa de ser “muleta” e volta a ser o que deveria ser: ferramenta de proteção, usada com precisão.

A pergunta correta não é “vai acabar?”.

A pergunta correta é: quantas aplicações eu consigo evitar quando meu sistema é bem manejado e minha aplicação é eficiente?

Isso sim é possível. E é aqui que meu ceticismo caiu: eu vi que existe um caminho técnico para sair do extremo (dependência) e ir para o equilíbrio (controle).

Oportunidade para o Paraná e para o Brasil: estudar, testar e profissionalizar

O agro está multiplicando conhecimento numa velocidade enorme. Quem se posicionar agora vai colher depois — como produtor, como consultor, como cooperativa, como empresa.

As oportunidades estão claras:

  1. Estudos e validação a campo

A ponte entre universidade, pesquisa aplicada e produtor é onde nasce vantagem competitiva.

  1. Profissionalização da aplicação
    Treinamento, calibração, tecnologia embarcada, padronização e métricas de eficiência.
  2. Nutrição e sanidade como estratégia de gestão de risco
    Menos improviso, mais diagnóstico, mais método.
  3. Inovação sem “guerra ideológica”
    O agro precisa de menos gritaria e mais dado. O que dá resultado fica. O que não dá, cai sozinho.

No fim, a agricultura do futuro não é a agricultura “sem defensivo”. É a agricultura com mais inteligência, com mais eficiência, com menos desperdício — e com mais respeito à realidade de quem produz alimento.

E eu digo isso sem romantizar: é isso ou o produtor segue pagando caro para errar.

Por Luiz Francisco Araujo da Costa Vaz, Engenheiro Agrônomo e Colunista Minuto Rural.