O que antes era visto por muitos produtores como um sistema alternativo, hoje se consolida como uma realidade cada vez mais presente no campo brasileiro. Essa transformação ficou evidente no 1º Dia de Campo 100% Orgânico da Agrícola Brotas, realizado no dia 23 de janeiro, no município de Piraí do Sul, nos Campos Gerais do Paraná. O evento reuniu agricultores, técnicos, extensionistas, representantes de empresas e entidades do setor para um dia inteiro de aprendizado, troca de experiências e demonstrações práticas sobre o manejo na agricultura orgânica.
Promovido com uma programação dividida entre palestras técnicas pela manhã e atividades práticas em campo durante a tarde, o encontro teve como principal objetivo mostrar que a produção orgânica é tecnicamente possível, produtiva e economicamente viável, além de estar alinhada às demandas futuras do mercado consumidor e às políticas públicas, como a obrigatoriedade da merenda escolar 100% orgânica no Paraná até 2030.
Desde as primeiras horas do dia, a movimentação no local já demonstrava o interesse crescente pelo tema. Produtores de diferentes municípios da região marcaram presença, reforçando a importância do evento como espaço de capacitação e construção coletiva do conhecimento.
Responsável técnica pelo evento, a engenheira agrônoma Letícia Lunardi destacou que o Dia de Campo superou as expectativas tanto em público quanto em diversidade de participantes.
“O dia de campo surpreendeu as nossas expectativas, tanto pelo público quanto pela diversidade de municípios que participaram. Tivemos produtores de Piraí do Sul, Castro, Jaguariaíva, Ventania, Tibagi, Ipiranga, Ivaí, entre outros. Foi muito gratificante ver essa diversidade regional reunida aqui”, afirmou.
Segundo Letícia, além da presença expressiva, a participação ativa durante as palestras foi um dos pontos altos do evento. “As pessoas participaram, perguntaram, trocaram ideias. Esses momentos são muito importantes porque o biológico e o orgânico estão se difundindo. O produtor poder vir, tirar suas dúvidas e levar esse conhecimento para casa, com mais segurança no manejo, é algo muito valioso”, explicou.
Durante a visita técnica em campo, os participantes puderam conhecer parcelas demonstrativas, comparar áreas testemunhas com áreas tratadas e conversar diretamente com técnicos e representantes das empresas parceiras.
“Ver os trabalhos em loco dá esperança ao produtor. Ele vê que é possível, que dá certo e que existem outras formas de conduzir a lavoura. E, principalmente, ele percebe que tem com quem contar”, reforçou Letícia.
A engenheira agrônoma também destacou a conexão do evento com as políticas públicas futuras.“Com a obrigatoriedade da merenda escolar 100% orgânica até 2030 no Paraná, esse dia de campo vem justamente para dar suporte aos produtores que querem migrar ou melhorar sua produção. Nosso papel é apoiar esse processo.”
Para Alexandre Pithan, representante da Agrícola Nossa Senhora das Brotas, o evento marca um momento histórico para o município.“Acredito que esse seja o primeiro dia de campo voltado exclusivamente ao orgânico aqui em Piraí do Sul. Isso é muito importante, porque o produtor orgânico enfrenta muitos desafios, principalmente com pragas, doenças e adubação de solo”, afirmou.
Alexandre destacou que, mesmo com restrições no uso de insumos, existem hoje diversas ferramentas capazes de auxiliar o produtor no manejo.
“Existem produtos que condicionam o solo, como os à base de leonardita e extratos de algas, além dos biológicos como Trichoderma, Bacillus thuringiensis, Beauveria e outros, que ajudam no controle de lagartas, mosca-branca, ácaros e pulgões”, explicou.
No campo demonstrativo, foram instaladas entre 11 e 12 culturas, permitindo que os produtores visualizassem os resultados na prática. “A interação do público foi muito boa. Começamos com palestras, mas no campo o pessoal participou bastante, perguntando e observando os detalhes do manejo”, completou.
A agrônoma e extensionista Inajara van Engelenhoven, do Centro de Treinamento para Pecuaristas de Castro, destacou a importância do evento para a agricultura familiar da região. “Aqui em Piraí do Sul temos a Coapsul, uma cooperativa da agricultura familiar com cerca de cinco anos. Esse campo demonstrativo mostra que o orgânico hoje tem tecnologia acessível ao pequeno produtor”, afirmou.
Segundo ela, o foco é mostrar, na prática, o uso de bioinsumos e tecnologias que respeitam o meio ambiente e garantem segurança alimentar.
“Falamos de bactérias benéficas, fungos entomológicos e outras ferramentas que ajudam no controle de doenças, preservando o meio ambiente e reduzindo o uso de agroquímicos”, explicou.
Inajara reforçou que o conhecimento técnico é essencial para o sucesso do manejo orgânico. “Existe, sim, produto para agricultura orgânica. Ele é viável, desde que usado dentro de um bom manejo. O produtor precisa saber como aplicar para que a tecnologia funcione”, destacou.
O presidente do Sindicato Rural de Tibagi, Mauricio Barreto, ressaltou a importância da participação da entidade no evento.
“Sempre buscamos prestigiar eventos da região. Em Tibagi temos muitos pequenos e médios produtores de horticultura e fruticultura, e esse conhecimento precisa chegar até eles”, afirmou.
Mauricio destacou o interesse em replicar iniciativas semelhantes em seu município. “Viemos conhecer o modelo do dia de campo. A parte de bioinsumos é uma demanda interessante e também a organização em cooperativas, algo que podemos levar como exemplo”, explicou.
Representando o IDR-Paraná, o agrônomo e extensionista Maghnom Henrique Melo conduziu uma das palestras técnicas do evento, focando no uso de bioinsumos na agricultura orgânica.
“O cultivo orgânico vem ganhando espaço no mercado, mas o produtor ainda tem dúvidas sobre onde encontrar e como utilizar os insumos corretos”, explicou.
Maghnom ressaltou que não basta apenas aplicar o produto, mas criar condições para sua eficiência. “É preciso manter palhada, umidade e proteger os microrganismos do sol. Sem manejo adequado, a tecnologia não funciona”, alertou.
Ele também destacou que os bioinsumos são seguros e não possuem período de carência. “Eles são seguros para quem aplica e para quem consome. Além disso, não são novidade, apenas estão voltando com mais força devido à resistência das pragas aos produtos sintéticos.”
Usando uma metáfora didática, o extensionista comparou a lavoura à floresta. “Na floresta não vemos plantas doentes porque existe equilíbrio. Quanto mais diversidade de organismos, mais difícil é para pragas e doenças se estabelecerem.”
Representando a Aduba Sul Fertilizantes, Luiz Antonio Kutianski apresentou alternativas de adubação orgânica aos produtores.
“Trouxemos o Orgânico Plus, feito 100% de cama de peru, além do fosfato natural reativo e do organofosfato”, explicou.
No campo experimental, a diferença entre áreas tratadas e testemunhas chamou a atenção dos participantes. “É visível a superioridade das plantas onde foi utilizado o adubo orgânico. Isso mostra que o manejo correto traz resultado”, afirmou.
Pela OMNIA, Antônio Fabiano apresentou produtos à base de leonardita e extratos de algas. “O Humakelp condiciona o solo e estimula o enraizamento, enquanto o Purakelp atua via folha, induzindo hormônios naturais da planta”, explicou.
Segundo ele, os resultados são evidentes em culturas como tomate e folhosas.
“A diferença na qualidade das folhas e na quantidade de frutos é muito clara quando comparada à testemunha.”
Para Miguel Angelo Freitas, da Clear Agro, o grande desafio da produção orgânica é manter produtividade e qualidade. “Os microrganismos ajudam no controle de pragas, doenças e na promoção de crescimento, entregando uma lavoura mais equilibrada”, explicou.
Ele destacou o papel das bactérias na fixação de nitrogênio. “Com essas tecnologias, a planta consegue utilizar o nitrogênio atmosférico, reduzindo uma das maiores dificuldades do orgânico.”
Produtor que abriu a propriedade para o evento, Fernando Leitão destacou a importância de compartilhar experiências. “É importante mostrar que o orgânico é possível. Com as tecnologias de hoje, dá para melhorar a produção e todo mundo ganha.”
Sua irmã, Marcela Leitão, reforçou o impacto das inovações. “Com o uso de novas técnicas, tivemos aumento de produtividade, principalmente nas verduras. Mostrar isso incentiva outros produtores.”
O 1º Dia de Campo 100% Orgânico da Agrícola Brotas mostrou que a agricultura orgânica deixou de ser apenas uma tendência e se consolida como um caminho viável e necessário para o futuro do campo. A união entre conhecimento técnico, prática no campo, políticas públicas e organização dos produtores fortalece um modelo produtivo que alia rentabilidade, sustentabilidade e segurança alimentar.