A criação do REVIS dos Muriquis de Castro, na região da Barrinha, em Castro (PR), foi tema do Café do Produtor do Sindicato Rural de Castro, na quarta-feira, 15 de outubro. O encontro reuniu produtores rurais e representantes do poder público para discutir o projeto coordenado pelo Instituto Água e Terra (IAT), que visa proteger o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) — também conhecido como mono-carvoeiro —, primata endêmico da Mata Atlântica é considerado criticamente ameaçado de extinção.
O engenheiro florestal do IAT, Eduardo Abilhoa Mattar, destacou a importância da parceria com o setor produtivo local para a conservação da espécie.
“O sindicato é um parceiro muito importante para a gente, tendo em vista que queremos conservar a maior espécie de primata das Américas, o muriqui-do-sul, que ocorre aqui em Castro, na região rural. Essa conservação vem sendo feita pelos próprios proprietários, então nosso objetivo é compreender o perfil desses produtores e encontrar formas de tornar a criação dessa área vantajosa para todos os lados”, afirmou Mattar.
Segundo o engenheiro, o projeto teve início em 2016, com a proposta de criação de um REVIS. Desde então, a iniciativa evoluiu para incluir pagamentos por serviços ambientais, estimulando a participação direta dos proprietários rurais. Estima-se que a região abrigue entre 70 e 80 indivíduos de muriqui-do-sul, reforçando a urgência de estratégias eficazes de proteção.
O muriqui-do-sul é o maior macaco das Américas, podendo atingir 1,5 metro de comprimento, da cabeça à cauda. Mattar explica que, diferentemente de outras espécies, ele é um animal dócil e tímido, que vive apenas em florestas maduras.
“É uma espécie que não se alimenta de pinus e depende de árvores grandes para dormir e se reproduzir. Por isso, precisamos de áreas conectadas de floresta nativa em estágio avançado”, detalhou.
O futuro REVIS abrangerá aproximadamente 6.200 hectares, sendo composto majoritariamente por florestas nativas. O modelo proposto permite a continuidade das atividades produtivas nas propriedades privadas incluídas no perímetro, desde que compatíveis com os objetivos de conservação.
“Não há obrigatoriedade de desapropriação, desde que o uso do solo respeite as diretrizes da unidade. Queremos que o produtor rural continue ativo, mantendo seu domínio sobre a terra, mas aliado à proteção ambiental”, ressaltou o engenheiro.
Além dos benefícios ecológicos, a criação do REVIS poderá gerar impactos econômicos positivos na região. A associação entre conservação ambiental e manejo sustentável de florestas de pinus e eucalipto pode fortalecer processos de certificação florestal, valorizando a madeira produzida e abrindo novos mercados nacionais e internacionais.
Outra frente promissora está na agricultura familiar, com a possibilidade de criar um selo de boas práticas de manejo e conservação do muriqui, agregando valor aos produtos locais.
“O desenvolvimento do projeto pode abrir oportunidades para os produtores rurais, estimulando negócios sustentáveis e melhorando a imagem da região no cenário ambiental”, explicou Mattar.
Os próximos passos do projeto incluem o diálogo direto com os proprietários rurais, a finalização dos estudos técnicos e a realização de uma consulta pública. A expectativa, segundo o coordenador, é que o decreto de criação da unidade seja publicado no início do próximo ano.
“O envolvimento do Sindicato Rural, do município de Castro e dos produtores é essencial. Queremos que todos compreendam as etapas do processo, os compromissos e os benefícios que essa iniciativa trará para a região”, concluiu Mattar.
Mais do que um projeto ambiental, a criação do REVIS dos Muriquis de Castro representa um novo modelo de convivência entre produção e preservação. Em meio às florestas de araucárias e aos reflorestamentos que moldam a paisagem de Castro, surge uma oportunidade única de unir a força do campo à riqueza da biodiversidade paranaense.