Ponta Grossa (PR), 28 de agosto de 2025 — A conservação do solo e da água foi o centro das atenções no primeiro Dia de Campo de Solos, promovido pelo Sistema FAEP na Fazenda Escola Capão da Onça, em Ponta Grossa, no dia 26 de agosto de 2025 .
O evento reuniu 81 participantes presencialmente, além de dezenas que acompanharam de forma remota, como parte do 5º Encontro Paranaense de Agricultura Sustentável. Realizado em parceria com a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e a Associação dos Engenheiros Agrônomos dos Campos Gerais (AEACG), o encontro trouxe reflexões e demonstrações práticas sobre técnicas que podem transformar o futuro do campo no estado.
A técnica Catherine Machulek, do Departamento Técnico e Econômico (DTE) da FAEP, explicou a motivação para levar o evento a diferentes regiões. "A intenção do Sistema FAEP é que o produtor possa ver na prática os conhecimentos técnicos gerados por meio das pesquisas. Queremos que ele se identifique e leve isso para a sua realidade no campo. Estamos trazendo o que há de mais novo em práticas conservacionistas de solo e água", destacou.
Ela ressaltou ainda que este é apenas o início de uma série de ações. "Esse em Ponta Grossa é o primeiro Dia de Campo do ano. Teremos outros em Cambé (2 de setembro), Cianorte (4 de setembro) e Dois Vizinhos (30 de outubro). Nosso objetivo é que todos os produtores do Paraná possam presenciar esses momentos e aplicar os conhecimentos em suas propriedades."
Manejo como chave da sustentabilidade
O diretor técnico da AEACG e Professor da UEPG, Adriel Ferreira da Fonseca, Coordenadores Geral do Evento, enfatizou que a conservação do solo e da água é hoje o maior desafio da sustentabilidade agrícola.
"Ontem abordamos as estratégias em caráter teórico. Hoje os participantes podem observar no campo áreas bem manejadas e outras com manejo deficitário, além do papel da cobertura do solo e dos terraços. É uma oportunidade inédita de mostrar resultados de mais de seis anos de pesquisa e transformá-los em tecnologia plausível, pronta para ser aplicada pelo produtor", afirmou.
Segundo ele, a adesão superou as expectativas. "Planejávamos 200 inscritos e tivemos 208. Isso demonstra o interesse da classe em compreender e aplicar técnicas que asseguram produtividade sem comprometer os recursos naturais."
Adriel conduziu a demonstração prática, evidenciando diferenças entre áreas com e sem terraços e o impacto direto na infiltração da água, na perda de sedimentos e no aproveitamento dos nutrientes. "Nas áreas sem terraços, a perda de solo pode ser até 100 vezes maior após uma chuva forte. Já com terraços bem manejados, conseguimos infiltrar mais água e reduzir drasticamente a erosão", explicou.
As pesquisas realizadas em megaparcelas de 1 hectare permitem medir com precisão a perda de sedimentos, nutrientes e defensivos agrícolas em diferentes condições de manejo. "A perda de solo nunca é zero, mas precisa estar dentro de uma faixa sustentável. É isso que estamos medindo: como mitigar perdas e garantir equilíbrio para as próximas gerações", completou.
Esse aprofundamento técnico trouxe aos participantes um retrato realista da importância de práticas complementares ao plantio direto e do monitoramento constante da qualidade do solo.
Orcial Ceolin Bortolotto,Ivo Mottin Demiate, Adriel Fonseca e Gustavo Ribas
Para o presidente do Sindicato Rural de Ponta Grossa, Gustavo Ribas, o evento reforça o valor estratégico do solo. "O solo é o nosso grande ativo, junto com o clima e o conhecimento. Quando unimos pesquisa, universidade e produtor, temos a certeza de um futuro melhor, porque transformamos ciência em resultados aplicáveis no campo", afirmou.
O vice-reitor da UEPG, Ivo Mottin Demiate, destacou o papel da universidade na aproximação com o setor produtivo. "Sustentabilidade no agronegócio é fundamental, e o Paraná é referência na bioeconomia. Receber um evento desse porte aqui, em parceria com a FAEP e o Sistema Confea/CREA, reforça a importância do programa ProSolos, que busca conservar solo e água em prol de uma agricultura sustentável."
Na mesma linha, o diretor da Fazenda Escola e professor da UEPG, Orcial Ceolin Bortolotto, ressaltou o valor científico aliado à aplicabilidade prática. "Este evento demonstra a força da parceria entre Estado, FAEP e academia. É uma chance de retomar práticas conservacionistas que perderam adesão ao longo do tempo, mas que hoje se mostram essenciais para viabilizar economicamente a produção de forma sustentável", afirmou.
Ele destacou ainda a importância de técnicas como curvas de nível e plantio direto bem estruturado para preservar a camada fértil do solo.
A professora da UEPG Neyde Fabíola Balarezo Giarola trouxe um panorama dos avanços científicos no âmbito do programa ProSolos, que reúne universidades, governo e entidades do setor produtivo. "Estamos apresentando resultados de mais de seis anos de pesquisa. O objetivo é responder questões que há muito tempo preocupam os agricultores, como a necessidade de práticas adicionais ao plantio direto, entre elas o uso de terraços agrícolas", explicou.
Ela lembrou que, quando o sistema de plantio direto não é conduzido adequadamente — sem rotação de culturas ou cobertura mínima do solo —, aumenta a compactação e o risco de erosão. "O plantio direto não é só palha. Ele envolve rotação de culturas e mínima mobilização do solo. A entrada de terraços pode ser decisiva quando essas premissas não são respeitadas", completou.
Conhecimento aplicado ao campo
Consultores e produtores também encontraram no evento inspiração para aplicar os ensinamentos no dia a dia. O consultor agrícola Rodrigo Hoinatski, de Porto Amazonas, destacou o impacto prático do manejo de terraços. "A quantidade de água que se consegue reservar, reduzindo a erosão e aproveitando melhor a chuva, é fantástica. Isso pode ser aplicado não só em grãos, mas até em fruticultura. Pretendo levar esse aprendizado diretamente para os produtores que atendo", disse.
A acadêmica de Agronomia da UEPG Laura Vitória Fontana Ferreira reforçou a importância de vivências como essa para os futuros profissionais. "Hoje, a sustentabilidade é essencial. É gratificante participar de um evento que mostra que não se trata apenas de ganhos financeiros, mas também de preservar o meio ambiente. É um aprendizado enorme", comentou.
Um marco para a agricultura sustentável
O Dia de Campo de Solos em Ponta Grossa se consolidou como um espaço de integração entre ciência, prática e tradição rural. Reuniu professores, produtores, consultores, entidade de classe, estudantes e lideranças para debater soluções viáveis e sustentáveis para a agricultura.
Mais do que números ou técnicas isoladas, a mensagem que ficou foi a de compromisso coletivo com o solo e a água, recursos que sustentam toda a cadeia produtiva. E, como destacou Catherine Machulek, o evento é apenas o começo de um ciclo de ações que vai percorrer diferentes regiões do Paraná ao longo do ano.