A cultura tropeira ganhou nova forma e visibilidade por meio da tecnologia. O designer gráfico Leo Fischer, natural de Lages, na Serra Catarinense, transformou a canção "Poncho Miliqueiro", apresentada na Sapecada da Serra Catarinense, em um videoclipe visualmente impactante.
O projeto uniu imagens reais registradas pela TV Câmara de Lages e cenas criadas com inteligência artificial, utilizando a ferramenta Google Veo3. O trabalho foi desenvolvido no contexto familiar e artesanal, com apoio da esposa de Leo, Tati, e teve como principal objetivo respeitar e amplificar a poesia da música.
"_______________________"Sou designer gráfico, natural de Lages, na Serra Catarinense, e atuo há mais de 15 anos com design gráfico, identidade visual, 3D e direção criativa", conta Fischer. Além de sua trajetória técnica, ele destaca seu interesse por narrativas visuais e a busca por representar a cultura local com profundidade.
Segundo ele, a decisão de criar o videoclipe nasceu de uma forte conexão emocional com a canção, interpretada ao vivo durante a Sapecada. "Quando ouvimos ao vivo 'Poncho Miliqueiro' pela primeira vez, senti uma verdade tão forte na melodia e na letra, que soube que o visual tinha que estar à altura dessa poesia", afirma.
O processo criativo envolveu pesquisa, sensibilidade e uma proposta estética clara: valorizar a emoção da canção sem permitir que a tecnologia se sobrepusesse à mensagem. "Optamos por uma abordagem híbrida: usar imagens reais gravadas pela TV Câmara de Lages [...] e depois, complementá-las com imagens geradas por inteligência artificial", explica. O Google Veo3 foi fundamental para dar forma a cenas poéticas difíceis de registrar com recursos tradicionais, como paisagens idealizadas e elementos simbólicos da tradição tropeira.
Leo destaca o cuidado necessário ao empregar a IA, ressaltando que ela deve ser usada como extensão da sensibilidade humana.
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"O desafio foi manter o equilíbrio. Não queríamos que a IA roubasse a cena, mas sim que ela reforçasse a emoção da música. O segredo foi usar a tecnologia como extensão da sensibilidade, não como substituta", afirma.
A partir dessa experiência, o designer passou a refletir sobre o potencial transformador das novas tecnologias no campo da criação visual. "Estamos vivendo um momento revolucionário para quem trabalha com imagem e narrativa. Ferramentas como o Google Veo3 abrem portas para representações visuais que antes eram inviáveis por questões de tempo, orçamento ou limitação técnica", observa.
Leo ressalta, no entanto, que o uso da IA deve vir acompanhado de consciência cultural. No processo de produção, foi necessário explicar para o sistema o que era um poncho, o que era um caderno sem espiral, e ajustar detalhes como bombachas que inicialmente foram interpretadas no estilo cowboy americano. "Creio que até acertarmos a geração da imagem do caderno sem espiral, foram mais de 50 prompts", revela.
O clipe, além de uma homenagem à música vencedora da Sapecada, torna-se também uma declaração sobre o poder das narrativas locais.
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"No caso do Poncho Miliqueiro, percebemos que a IA pode ser um instrumento de valorização da cultura, desde que usada com consciência e afeto. Ela não substitui o olhar humano, mas amplia suas possibilidades", defende Leo.
O projeto inspirou o casal a produzir um segundo vídeo, desta vez explicando o processo criativo do clipe e também os termos e referências culturais menos conhecidos fora do Sul do país. "Já estamos preparando um novo vídeo, mostrando como o clipe foi feito, e também explicando o significado das palavras que não são tão comuns para o restante do país."
Para Leo Fischer, a fusão entre tradição e inovação é o caminho para manter vivas as narrativas culturais brasileiras. "Quero continuar criando vídeos que contem histórias brasileiras, serranas, populares, usando as novas ferramentas como ponte, não como filtro", finaliza.
O trabalho do designer lagense é exemplo de como a tecnologia, quando aliada à sensibilidade e ao respeito cultural, pode se tornar uma ferramenta de preservação da memória coletiva e expressão artística.