Sete cavaleiros e três motoristas de apoio formam a comitiva que partiu da pequena cidade de Vitor Meireles, em Santa Catarina, rumo ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo. A peregrinação, marcada pela fé e pela tradição tropeira, começou no domingo, 11 de maio, e deve durar 33 dias. Ao final do trajeto, serão percorridos aproximadamente 1.300 quilômetros. Os viajantes conduzem cavalos da raça Mangalarga e contam com apoio logístico por onde passam.
A jornada, que cruza três estados brasileiros, é marcada por paisagens deslumbrantes, histórias de devoção e uma rede de solidariedade formada por tropeiros locais. Cada etapa da viagem cobre entre 30 e 40 quilômetros por dia, com paradas estratégicas para descanso e alimentação dos animais e da comitiva.
À frente da iniciativa está o agropecuarista Alisson Berkenbrock, que carrega no sobrenome e no coração um histórico de fé: ele é primo de Albertina Berkenbrock, beatificada pelo Vaticano em 2007, e oriundo de uma família com forte tradição religiosa. “A motivação é a fé. E também a amizade que a gente vai construindo durante o trajeto”, conta Alisson.
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Segundo ele, a preparação da viagem começou há mais de dois anos. “O bem-estar dos animais foi planejado com antecedência. A alimentação é balanceada, pensada nos mínimos detalhes, e os motoristas cozinheiros garantem nosso sustento com comida tropeira típica”, explica.
Além de Alisson, compõem a comitiva os cavaleiros Osnildo José de Oliveira, Luiz de Oliveira, Lauri Afonso de Oliveira, Aguinaldo Reges de Oliveira, Douri da Rosa e Gersei de Oliveira, e os motoristas José Dognini, Ilson Scherer e Anderson Renge. Cada um tem um papel essencial na rotina da cavalgada, desde os cuidados com os animais até o preparo das refeições e a escolha dos caminhos mais seguros.
Ao longo do trajeto, os cavaleiros são recepcionados por tropeiros locais, que os guiam até a próxima cidade. Foi assim que conheceram a pecuarista Marlene Kaiut, conhecida como a rainha do Jersey, que acompanhou o grupo em parte da jornada.
“Eles estiveram na minha casa há cerca de um mês e ficaram uma noite hospedados lá para organizar o trajeto. Conheço o Alisson há anos e hoje tive a oportunidade de cavalgar com eles por quase 40 km. Foi muito divertido, e minha família também participou. Até as crianças estão encantadas e querem um cavalo agora”, relata Marlene.
Para Marlene, a experiência foi além do lombo do cavalo. “Conversamos sobre realidades diferentes — eles são tropeiros e agricultores, eu sou da pecuária de leite. A troca de experiências é muito rica. As paisagens são lindas, e a receptividade das pessoas é emocionante.”, revela
A cavalgada também foi recebida com entusiasmo por João Carlos da Silva, conhecido como Carlinhos Tropeiro, fundador do grupo Tropeiros Nativos de Piraí do Sul. “É uma satisfação enorme receber esses herois da fé. Já fizemos essa caminhada em 2007 e sabemos o quanto é desafiador. Recebê-los em nosso rancho é motivo de orgulho”, diz.
Em cada pouso, os tropeiros recebem apoio de comunidades locais que oferecem abrigo, alimento e orientação. Segundo Alisson, “a hospitalidade tem sido emocionante. Muitos vêm nos encontrar, guiar até o próximo pouso e compartilhar suas histórias. É uma troca que fortalece a jornada”.
Durante a peregrinação, um dos momentos mais simbólicos foi a parada no Santuário de Nossa Senhora das Brotas, localizado em Piraí do Sul (PR). Muito mais do que um ponto de descanso, o local é um marco espiritual da Rota dos Tropeiros e da Rota do Rosário, caminhos que unem religiosidade, cultura e história no interior do Brasil.
A devoção à Nossa Senhora das Brotas remonta a 1808, quando o então Frei Galvão, hoje santo da Igreja Católica, visitava conventos no sul do Brasil e encontrou repouso naquela região. Desde então, o santuário passou a receber tropeiros que percorriam o trajeto entre Viamão (RS) e Sorocaba (SP) no auge do ciclo do tropeirismo. Tornou-se, assim, um ponto de fé e repouso para os viajantes da época.
Com o passar dos anos, o santuário se consolidou como patrimônio religioso da região e ganhou importância no turismo de fé. Hoje, o espaço é conhecido como o Portal da Rota do Rosário, que liga dezenas de santuários e igrejas do Paraná em uma trilha de espiritualidade.
A comitiva também teve a oportunidade de conhecer o santuário. “Eu não conhecia, e foi muito gratificante visitar. A igreja é magnífica. Só temos a agradecer a todos que nos recebem com tanto carinho”, reforça Alisson.
Ao refletir sobre o que levará da experiência, Alisson cita uma frase de um velho tropeiro: “Nós não vamos voltar às mesmas pessoas. Vamos com o coração mais aberto. Até os cavalos vão voltar melhores”. A jornada, segundo ele, é uma transformação espiritual e humana.
O grupo caminha com um cronograma ajustado para garantir a chegada no dia 14 de junho. Durante o percurso, são recepcionados por tropeiros locais que indicam caminhos, oferecem pouso e apoio, mantendo viva uma tradição secular.
Com apoio logístico e espiritual, a comitiva já atravessou boa parte do Paraná e avança agora rumo ao estado de São Paulo, cada vez mais próxima de seu destino final: a Casa da Mãe Aparecida. “Gratidão é a palavra. Aos motoristas, às famílias que nos acolheram, aos tropeiros que nos guiaram. Cada gesto, cada palavra de apoio nos fortalece.”
A Cavalgada da Fé de Vitor Meireles é mais que um ato de devoção — é uma celebração da cultura tropeira, da fé que move montanhas e da generosidade que une e transforma estranhos em amigos. Em cada parada, uma nova história; em cada trote, um passo mais perto do sagrado.