Blogs ORÇAMENTO PÚBLICO
Brasil x EUA: Como os Dois Maiores Países das Américas Conduzem Seus Orçamentos Públicos
A condução do orçamento público reflete as prioridades de um país, sua organização institucional e seu compromisso com a responsabilidade fiscal. Quando comparamos Brasil e Estados Unidos — duas das maiores economias do continente americano — surgem contrastes marcantes nos modelos de elaboração, execução e controle orçamentário. Este artigo explora esses aspectos com base em dados recentes e fontes oficiais.
05/05/2025 16h33 Atualizada há 1 ano
Por: Redação Fonte: Vinícius Brizola de Oliveira
Vinícius Brizola de Oliveira

No Brasil, o orçamento público é composto por três peças principais: o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA). A Constituição de 1988 estabelece regras rígidas de vinculação de receitas, como:

• Educação: mínimo de 25% da receita dos estados e municípios.

• Saúde: mínimo de 15% da receita corrente líquida da União (após a EC 95).

• Emendas parlamentares impositivas: em 2024, representaram cerca de R$ 38 bilhões.

Segundo o Tesouro Nacional, em 2023 o orçamento federal foi de R$ 5,4 trilhões, sendo R$ 2,1 trilhões destinados ao refinanciamento da dívida pública.

Estados Unidos: Flexibilidade e Pragmatismo

O orçamento federal dos EUA é mais flexível, elaborado pelo escritório de administração e orçamento (OMB), com base nas diretrizes do Presidente e aprovado pelo Congresso. Não há vinculações constitucionais como no Brasil.

Em 2023, o orçamento federal foi de US$ 6,1 trilhões, com a seguinte distribuição (fonte: Congressional Budget Office - CBO):

• Defesa: US$ 858 bilhões

• Saúde (Medicare e Medicaid): US$ 1,6 trilhão

• Seguridade Social: US$ 1,3 trilhão

• Juros da dívida: US$ 659 bilhões.

O Brasil teve um déficit primário de R$ 230 bilhões em 2023, equivalente a 2,1% do PIB. A dívida bruta do governo geral fechou o ano em 74,3% do PIB (segundo o Banco Central).

O arcabouço fiscal aprovado em 2023 busca limitar o crescimento real das despesas a 70% do crescimento da receita, com meta de déficit primário zero em 2024.

O déficit federal dos EUA em 2023 foi de US$ 1,7 trilhão, cerca de 6,3% do PIB. A dívida pública ultrapassou US$ 34 trilhões, equivalente a mais de 123% do PIB, um dos maiores níveis desde a Segunda Guerra Mundial.

Apesar disso, os EUA mantêm credibilidade internacional devido à confiança no dólar como moeda global e à sua capacidade de financiar a dívida com juros relativamente baixos (até 2023).

 

“A análise comparativa da gestão orçamentária no Brasil e nos Estados Unidos durante a última década revela um panorama complexo, onde ambos os países, apesar de suas vastas diferenças institucionais e socioeconômicas, enfrentam desafios prementes para tornar seus orçamentos ferramentas eficazes para o desenvolvimento sustentável e o bem-estar social. A experiência brasileira com a rigidez fiscal e a austeridade contrasta com a fragmentação processual e a insustentabilidade fiscal de longo prazo americana, mas ambas as trajetórias levantam questões críticas sobre a capacidade dos respectivos sistemas políticos de fazer escolhas orçamentárias que sejam fiscalmente responsáveis, economicamente prudentes e socialmente justas.”

 

No Brasil, em 2023, os principais itens do orçamento federal brasileiro foram:

• Previdência (INSS): R$ 860 bilhões

• Encargos da dívida: R$ 720 bilhões

• Saúde e educação juntos: R$ 275 bilhões

Isso demonstra o peso estrutural das despesas obrigatórias, que consomem mais de 93% do orçamento primário.

Os EUA concentram gastos em seguridade social, saúde e defesa. A presença militar global e os programas de bem-estar social explicam a composição:

• 25% para Social Security

• 24% para saúde pública

• 14% para defesa

O Brasil possui um sistema robusto de controle com atuação do Tribunal de Contas da União (TCU), da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). O Portal da Transparência é considerado uma referência.

Nos EUA, o Government Accountability Office (GAO) e os comitês do Congresso exercem o controle. O orçamento é frequentemente objeto de disputa partidária, com frequentes “shutdowns” em caso de impasse.

Enquanto os EUA demonstram maior flexibilidade e capacidade de adaptação orçamentária, o Brasil segue preso a uma estrutura engessada e altamente judicializada. Por outro lado, o país avança em mecanismos de controle e transparência que, muitas vezes, superam os dos EUA.

A condução do orçamento revela mais do que números: ela mostra as escolhas políticas e institucionais de cada nação. Em tempos de incerteza global, a busca por equilíbrio entre responsabilidade fiscal e justiça social é mais urgente do que nunca.