Geral ROMARIA DA TERRA
Diocese sedia no domingo a Romaria da Terra
Ortigueira var receber representantes de todas as dioceses
18/08/2023 18h43
Por: Redação Fonte: Assessoria Com Diocese PG
O secretário Alexandre, padre Joel, Dom Sergio e padre Dirceu

 “Queremos crescer nesse espírito de sinodalidade, de abertura de um modo inter-religioso e ecumênico com toda a comunidade paranaense. Queremos que seja um momento de revermos os nossos caminhos, as nossas opções e possamos dar passos. Esperamos que o fruto venha e o fruto vai ser o reconhecimento dessa diversidade, dessa variedade muito grande de atividades que nós temos no estado e também a partilha dos alimentos”. Essa é a expectativa do bispo Dom Sergio Arthur Braschi quanto a 34ª Romaria da Terra do Paraná, que acontecerá no domingo (20), na Paróquia São Sebastião, em Ortigueira, território da Diocese de Ponta Grossa.

Pela primeira vez, em 38 anos, a Diocese vai sediar a Romaria, organizada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). As reflexões deste ano terão como tema

‘Na terra de Deus, resistir, organizar, partilhar, para a fome saciar!  De acordo com o coordenador regional da CPT, padre Dirceu Fumagalli, devem participar delegações de todos os cantos do Paraná, entre comunidades, movimentos sociais, do campo e da cidade, representando todas as dioceses do Estado. A programação inicia com a acolhida e café da manhã partilhado, às 7 horas. A abertura oficial será às 9 horas, “com reflexão sobre a terra de Deus e a resistência, a partir da memória histórica da luta e resistência dos camponeses e o papel da própria Romaria nesse processo”, detalha o padre.

Em seguida, um momento de espiritualidade, sob inspiração da Palavra de Deus, “que nos faz tomar o nosso compromisso e a própria cruz, que é o símbolo da resistência. Uma caminhada de aproximadamente um quilômetro e, à tarde, discutir a organização no campo. Isso que queremos com a Romaria: dar visibilidade às iniciativas e organizações existentes ali, no Caminho do Tibagi, principalmente em Ortigueira, onde vamos mostrar a grande diversidade de produção”, acrescenta o coordenador regional, citando que o mento termina com a partilha entre os romeiros e as comunidades mais vulneráveis, em um gesto de solidariedade. 

O bispo Dom Sergio afirma que a Diocese está muito feliz por poder estar em profunda comunhão com toda a Igreja do Paraná. “A Romaria da Terra é sempre promovida pelo Regional, a nível estadual, e nós nunca tínhamos tido a possibilidade de sediá-la. Agora, exatamente quando a nossa região está comemorando vários jubileus, os 200 anos da igreja-mãe - a primeira paróquia da cidade – (ela acontece). Tudo motivo de grande alegria. E a escolha de Ortigueira, que tem uma série de realidades, que mostram a necessidade de olhar toda a Diocese e o todo o Paraná. A Romaria vai jogar uma luz em toda essa realidade: produção da agricultura familiar, o agronegócio, os indígenas -  é o único município da Diocese que tem comunidades indígenas (Mococa Natingui e Queimados) - situações de acampados e algumas áreas da Libertação Camponesa, que faz muitos anos que foram assentados e regularizados ali”, enumera Dom Sergio. O bispo lembra que as visitas pastorais mais longas que fez foram em Ortigueira, à Paróquia São Sebastião. “Precisou ser dividida em duas etapas para eu conhecer toda essa realidade, que hoje está com um progresso muito grande”.

Falando sobre a temática da Romaria da Terra deste ano – ‘Na terra de Deus, resistir, organizar, partilhar, para a fome saciar! ’ - Dom Sergio destaca que a Igreja sempre procura caminhar no sentido de facilitar o diálogo e a compreensão. Ao chamar a atenção para a diversidade de produtos estampada no cartaz de divulgação da Romaria, o bispo afirma que a ideia não aparece somente na diversidade das culturas que estão no campo, mas nas diversidades das vocações. “Dos vários tipos de atividades que temos no Estado. Queremos enfatizar isso. Temos também a consciência que a terra é de Deus. No Antigo Testamento temos os relatos que o povo foi peregrinando e Deus foi lhes dar a terra, “a terra que eu prometi dar a vossos pais, Abraão, Isaac e Jacó” (Deuteronômio 1,8). Isso aparece muito claro. Depois, essa consciência da realidade social que grava sobre a propriedade da terra. Não somos donos dos bens. Estamos usando durante algum tempo. É preciso a revisão da mentalidade consumista. Deus é Deus está acima de todas as coisas e a Romaria vai nos trazer essa reflexão também, fomentando a partilha”, enfatiza.

O que é

Padre Dirceu Fumagalli ressalta que, enquanto ação de mobilização das comunidades do campo e da cidade, a Romaria da Terra tem papel extremamente importante para a vida das comunidades, da Igreja e dos movimentos sociais. “Sempre traz um tema onde, ao celebrarmos, os movimentos sociais o desdobram em suas ações. Este ano, ao celebrar em Ponta Grossa será refletido o tema dando sequência ao debate da Campanha da Fraternidade, que era a questão da fome. (A Romaria da Terra) Quer discutir, refletir e propor ações de superação da fome. Refletir a partir do campo. O campo tem que ser destinado, prioritariamente, para produzir comida e comida boa, saudável e não o que está acontecendo hoje com o território do Paraná: grande produtor de grãos, de commodities, na realidade, e não de alimentos”, explica.

Sobre a escolha da região, padre Dirceu frisa que ela já foi o de menor Índice de Desenvolvimento Humano do Paraná e que, graças a alguns projetos, as ações políticas e a organização popular, saiu dessa condição.

“Para expressar que, quando tem empenho tanto político, quanto de organização social, somos capazes de superar essa realidade. (Isso) A partir do modelo de produção, de referência de produção, da agricultura familiar camponesa, do agroecológico. Aí, sim, tem todo esse cuidado com a Casa Comum. Não é só produzir, mas em que condições produzir. Para as pessoas, ao consumir, também saberem que o ato de comer também é um ato político: o que comemos, de onde vem, de que forma é produzido, que impacto tem essa produção nas nossas terras e nas nossas águas”, argumenta.

Como exemplo, padre Dirceu afirma que, se fôssemos dividir a produção de grãos do Brasil por cada brasileiro, cada um poderia comer seis quilos e 600 gramas de grãos por dia. “Não é falta de produção. É o que produz e para o que produz. No Paraná, mais ainda. Cada paranaense poderia comer nove quilos de grãos por dia e temos no Paraná mais de um milhão de pessoas abaixo da linha de pobreza. No Brasil, mais de 33 milhões. É o modelo. O campo deixa de cumprir seu papel vocacional, que é produzir alimento. Produz commodities, grãos, madeira, açúcar, para exportação. O modelo e a política que se tem não é para abastecer as mesas mas para abastecer o mercado internacional. Na pandemia, isso ficou explícito: se chegou a pagar no óleo de soja R$ 11 o litro e tivemos recorde na produção de soja naquele período. Infelizmente, no Brasil primeiro se pensa em exportar e só depois em abastecer”, resume.

A Romaria da Terra é fruto da parceria de grandes articulações: a Comissão Pastoral da Terra, que é uma pastoral que tem a responsabilidade de propor o tema e o debate da Romaria; a Diocese, que dialogou, indicou onde seria mais apropriado ela acontecer, a partir do tema proposto; o poder público local, que deu uma força importante na infraestrutura e na articulação, e, a Paróquia São Sebastião. “Esse quadripé garante uma boa organicidade da Romaria. Provavelmente, não será nos moldes dos anos 90, de uma multidão de pessoas, mas terá uma qualidade importante, porque a intenção é espraiar por todo o Estado o debate do modelo e da importância do investimento em agricultura familiar para a superação da fome para que isso tenha esse efeito”, adianta padre Dirceu.   

Evangelização

Padre Joel Nalepa, coordenador diocesano da Ação Evangelizadora, diz que a Diocese de Ponta Grossa está a pagar uma dívida com as demais dioceses. “Não tivemos até agora a Romaria na Diocese, em 38 anos. É uma contribuição quanto à sinodalidade de caminhar junto com todo o Paraná. Temos uma diocese que, se olharmos, a maioria das comunidades é formada por comunidades rurais. Mesmo que tenhamos metade da população na sede do município, grande parte da população está na realidade rural. Muitos são forçados a sair do campo, migrando para as periferias das cidades maiores em busca de uma melhor qualidade de vida. A Romaria pode ser o momento de dar visibilidade a quem luta e se organiza e prospera no campo, consegue viver bem nesse meio, e, mostrar para a sociedade que não é saindo do campo que a vida vai melhorar, mas dando condições para que todos tenham condições de viver bem onde estão, de forma de vida digna e edificante”, defende padre Joel.

Para o coordenador diocesano, a Igreja tem o trabalho de ajudar as pessoas a entenderem que a vida é um dom de Deus, o alimento é um dom de Deus. “Quando nos deparamos com a fome vemos que também no tempo de Jesus esse tema era debatido, solucionado. A proposta da Campanha da Fraternidade – ‘Dai-lhes vos mesmos de comer’ - é o convite para que a partilha possa acontecer. É preciso fortalecer na Diocese as pastorais sociais, os organismos, porque temos bons trabalhos e bons projetos. Essa reflexão sobre a vida, a fome é do Evangelho. É fundamental esse papel”.

      Conforme padre Joel, todas as iniciativas ajudam a superar algumas resistências. “Sabemos que esse tema é bem delicado - quando trabalhamos a questão da terra, do agronegócio, da produção - a Romaria pode nos ajudar a entender que é uma oportunidade de termos um olhar mais atento para quem trabalha, produz, insiste em viver em realidades que nem sempre tem o devido apoio, e, também crescermos na comunhão interna como Diocese e ainda nessa comunhão ecumênica com as pessoas de boa vontade que colaboram e produzem para o bem de toda a sociedade. É uma oportunidade de crescermos na sinodalidade, na comunhão e no ecumenismo também”, ressalta.

Ortigueira

O secretário de Agricultura e Abastecimento de Ortigueira, Alexandre José Moraes, cita que é a primeira vez na história que a cidade tem um prefeito (Ary Mattos) que vem da agricultura familiar. O secretário também vem de uma família de agricultores familiares. “Quem vive no meio sabe das dificuldades. Quando fomos procurados pela organização (da Romaria), por determinação do prefeito, abrimos as portas não só da Secretaria de Agricultura, mas da de Saúde, Educação, Ação Social e de Governo. Ortigueira hoje é um município pujante. São quase três mil propriedades rurais e 75% pertencem à agricultura familiar. 600 famílias assentadas e 500 famílias acampadas, lutando pela terra e que recebem apoio da atual administração. 70% dos alimentos produzidos vêm da agricultura familiar. Ela gera divisas, empregos no campo e a produção de alimentos. Temos essa preocupação e a temática da 34ª Romaria também: o combate à fome e a permanência das pessoas no campo. Essa é a grande luta. Estamos contribuindo com isso. Se por um lado temos a obtenção de divisas, por outro temos que buscar o desenvolvimento sustentável. Que difere de crescimento”, enumera o secretário.

De acordo com o secretário, a prefeitura usa os recursos para gerar programas e subsídios voltados para a agricultura familiar. “Aumentamos em dez vezes os recursos da Secretaria da Agricultura. Temos um município extenso, o quarto em extensão territorial do estado. Nosso programa voltado à agricultura familiar e sustentável foi transformado em lei. Hoje, há uma legislação que ampara e os agricultores podem cobrar futuramente se não for aplicada. Saímos de um investimento de R$ 1. 800.00,00 por ano para R$ 10 milhões/ano. Ano passado, atendemos 780 agricultores com 6 mil toneladas de calcário. A distribuição de sementes, ano passado, beneficiou 1150 produtores, equipamos a Secretaria, que só tinha um trator e ganhou mais nove, com conjuntos de implementos. Temos implementos também de última geração para atender a cadeia produtiva do leite. 64 resfriadores estão à disposição de mais de 200 agricultores. O programa de inseminação artificial envolve mais de 130 propriedades. Há três veterinários e dois agrônomos contratados para assessorar o pequeno produtor”, lista Moraes.

“A Romaria da Terra nos leva a refletir sobre a nossa história, o momento atual e o rumo que temos que tomar a nível local, regional e até nacional para manter essas famílias no campo, produzindo alimentos. Atender o pequeno produtor não é dar; é devolver o que estão produzindo e, que, muitas vezes, não têm incentivo para permanência. Comungamos com o tema da Romaria. Não é só simbólico. Tem toda uma luta envolvida. Ortigueira reflete muito bem a realidade porque temos assentados, reassentados da barragem, povos indígenas, acampados. É um momento importante para a reflexão”, finaliza.